Estudo associa uso intenso das plataformas digitais a maior sofrimento psicológico entre adolescentes
Por Patricia Scott
O uso prolongado das redes sociais pode estar relacionado a um aumento significativo de sintomas de ansiedade e pensamentos suicidas entre adolescentes. É o que aponta uma pesquisa conduzida pela UTHealth Houston e publicada na Pediatrics Open Science, nos EUA. Segundo o estudo, participantes que permaneciam seis horas ou mais por dia nas plataformas apresentavam o dobro de sintomas de ansiedade e até três vezes mais relatos de ideação suicida em comparação com aqueles que utilizavam as redes por menos de uma hora diariamente.
A pesquisa acompanhou 1.066 participantes entre 2018 e 2025. No início do levantamento, eles tinham, em média, 12 anos e responderam anualmente a questionários sobre o tempo dedicado às redes sociais. Apenas 8,5% relataram utilizar essas plataformas por menos de uma hora ao dia. Mais de um terço afirmou permanecer conectado entre uma e três horas, enquanto pouco mais de 17% ultrapassavam seis horas diárias.
As meninas apresentaram maior tempo médio de exposição às redes, além de uma associação mais acentuada entre o uso intenso das plataformas e sintomas de ansiedade. Para avaliar a saúde mental dos participantes, os pesquisadores utilizaram instrumentos destinados a identificar sinais de depressão e transtorno de ansiedade generalizada. Os questionários abordaram situações como alterações no sono, falta de apetite, tensão e dificuldade para relaxar.
Para Jeff Temple, professor e reitor associado de pesquisa clínica da Escola de Ciências do Comportamento e Saúde da UTHealth Houston, a relação entre o uso das redes e o sofrimento psicológico pode ocorrer nos dois sentidos. O excesso de exposição pode contribuir para o agravamento da saúde mental, mas jovens que já enfrentam ansiedade ou depressão também podem recorrer às plataformas como forma de fuga.
“Quando os adolescentes usam as redes, comparam-se com os outros. As pessoas publicam apenas o que é bom, na maioria dos casos, e eles veem essa vida feliz onde tudo é perfeito. Depois, passam a se comparar com esse padrão”, afirmou Temple.
Segundo o pesquisador, outro fator de preocupação é a substituição das interações presenciais pelo tempo diante das telas. “Também pode acontecer que, por passarem tanto tempo no ecrã [tela], deixem de estar no mundo real a obter aquelas interações pró-sociais que nos tornam felizes e menos ansiosos”, explicou Jeff Temple.
O estudo também procura atualizar o debate sobre os efeitos das redes sociais entre os mais jovens. De acordo com Temple, pesquisas anteriores frequentemente se concentravam em adolescentes mais velhos ou universitários e foram realizadas antes da popularização de plataformas como o TikTok.
Para Temple, os resultados ajudam a transformar em evidência científica uma preocupação já presente entre famílias e jovens. “É fácil culpar o que temos à frente, literalmente os telemóveis. Sem estudos, é apenas opinião”, declarou.
O pesquisador defende que compreender melhor a relação entre redes sociais e saúde mental pode ajudar a desenvolver estratégias para reduzir os impactos negativos da exposição excessiva. “Depois de compreendermos e reconhecermos o problema, podemos começar a responder ao quem, o quê, quando, onde, porquê e como”, afirmou, destacando a necessidade de buscar formas de reduzir o tempo diante das telas e tornar as plataformas digitais ambientes menos prejudiciais à saúde mental.
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