Ministério da Saúde lança campanha contra o vício em apostas online. Líderes cristãos defendem prevenção, discipulado e cuidado espiritual
Por Cristiano Stefenoni
A explosão das apostas esportivas online no Brasil deixou de ser apenas uma questão financeira para se tornar também um desafio de saúde pública e um motivo de preocupação dentro das igrejas. Diante do crescimento dos casos de dependência, o Ministério da Saúde lançou esta semana a Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online, iniciativa que busca conscientizar a população sobre os riscos das chamadas “bets” e divulgar os serviços gratuitos de acolhimento e tratamento oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Veiculada em televisão, rádio e redes sociais, a campanha apresenta uma novidade importante: um serviço de teleatendimento especializado para pessoas que desenvolveram problemas relacionados aos jogos de apostas, além de suporte para familiares afetados.
O lançamento ocorre em um momento especialmente delicado. Dados da pesquisa PoderData revelam que 41% dos evangélicos afirmam fazer apostas esportivas online em 2025, um crescimento expressivo em relação aos 29% registrados no ano anterior. Entre os católicos, o percentual também aumentou, passando de 22% para 34%. Os números acendem um alerta não apenas sobre o impacto econômico das apostas, mas também sobre suas consequências emocionais, familiares e espirituais.
Saúde pública e acolhimento
Segundo o Ministério da Saúde, o transtorno relacionado aos jogos de azar é reconhecido internacionalmente como uma doença e pode provocar ansiedade, depressão, endividamento, isolamento social, conflitos familiares e perda do controle sobre o comportamento.
Por isso, a campanha orienta os brasileiros a identificarem sinais de risco, como dificuldade para interromper as apostas, gastos superiores ao planejado, preocupação constante com os jogos e prejuízos à vida pessoal e profissional.
O acesso ao atendimento começa pelo aplicativo Meu SUS Digital, onde o usuário responde a um autoteste. Caso seja identificado risco moderado ou elevado, o sistema realiza automaticamente o encaminhamento para atendimento especializado por teleconsulta. O serviço é gratuito, sigiloso e também pode ser utilizado por familiares que convivem com pessoas dependentes das apostas.
Uma armadilha para a fé
Para o pastor Bruno Caetano Simplício, presidente da Igreja Batista Atitude no Espírito Santo, o crescimento das apostas entre cristãos revela uma realidade preocupante.
“Os efeitos são devastadores. Espiritualmente, a aposta alimenta a cobiça e desvia a confiança que deveria estar em Deus. Muitos começam gastando pouco, mas acabam presos em um ciclo viciante, semelhante a outros tipos de dependência. Isso rouba tempo de comunhão com Deus, traz culpa e afasta da vida de oração e da igreja”, afirma.
Segundo ele, os impactos rapidamente ultrapassam a esfera espiritual. “No aspecto familiar, as consequências vão desde dificuldades financeiras até brigas conjugais e distanciamento emocional. Não são poucos os lares que sofrem com dívidas, promessas quebradas e má administração causada pelo vício em apostas. A Bíblia ensina que o diabo veio ‘para roubar, matar e destruir’ (João 10:10), e esse é exatamente o rastro que as bets têm deixado em muitas famílias”, alerta.
Os dados da própria pesquisa reforçam essa preocupação. Em apenas onze meses, o percentual de apostadores endividados praticamente dobrou, passando de 16% para 35%. Para Simplício, o problema vai além da busca por dinheiro.
“Vejo com muita preocupação. O crescimento das chamadas bets mostra como o entretenimento rápido e a promessa de dinheiro fácil têm atraído pessoas, inclusive cristãos. Muitos acabam sendo seduzidos pelo imediatismo: a ilusão de enriquecer sem esforço. Isso revela também uma lacuna espiritual. Quando o coração não está satisfeito em Deus, ele procura escapes em promessas vazias”, ressalta.
O que a Bíblia ensina
O pastor Leonino Barbosa Santiago, mestre em Liderança pela Andrews University, afirma que, embora a Bíblia não mencione diretamente as apostas esportivas digitais, seus princípios deixam claro que o cristão deve manter distância dos jogos de azar.
“O jogo de azar afeta cada vez mais pessoas ao redor do mundo. O conceito de ganhar à custa dos outros tem se tornado uma espécie de maldição moderna. Não é uma forma apropriada de lazer ou um meio legítimo de se ganhar dinheiro. Então o cristão não deve jogar”, afirma.
Ele cita passagens bíblicas que orientam sobre a relação do cristão com o dinheiro: “O dinheiro ganho com desonestidade diminuirá, mas quem o ajunta aos poucos terá cada vez mais” (Provérbios 13:11).
E também: “Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos… pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1 Timóteo 6:9-10). Santiago esclarece ainda que títulos de capitalização não se enquadram como jogos de azar, por serem aplicações financeiras regulamentadas.
Mordomia cristã
Para o teólogo Lourenço Stelio Rega, Ph.D. em Ciências da Religião, a discussão não envolve apenas dinheiro. Segundo ele, recentes investigações apontam que parte das plataformas de apostas é alvo de apurações envolvendo organizações criminosas e lavagem de dinheiro, aumentando ainda mais a preocupação sobre o setor.
Mas, do ponto de vista bíblico, Rega destaca que a questão principal é a mordomia cristã. “Na Bíblia, há princípios que apontam para a importância da mordomia da vida. O chamado de Jesus em Lucas 9:23 é para entregarmos tudo a Ele, todo dia, e isso envolve 100% do que temos e somos. Tudo faz parte da gestão que nos compete e é esperada por Deus, inclusive dos bens e da minha saúde física, mental, emocional e espiritual. É papel de cada cristão ser instrumento de Deus diante de um mundo viciado, imediatista e inconsequente.”
Já o empresário e teólogo Fábio Hertel acredita que os cristãos devem evitar qualquer forma de jogo de azar. Segundo ele, os benefícios prometidos pelas apostas jamais compensam os prejuízos provocados na vida das famílias e das igrejas.
“Nossa posição é de firmeza e prudência, buscando sempre preservar os valores do Reino, conforme orientado pelos princípios bíblicos de responsabilidade e cuidado com o próximo”, enfatiza.
Como fundamento, ele cita Efésios 5:3: “Entre vós não deve haver nem sequer menção de… cobiça; pois essas atitudes não são adequadas aos santos.” A advertência reforça que o problema das apostas não se resume à perda financeira, mas envolve também o cultivo de um coração dominado pelo desejo de enriquecimento fácil, incompatível com os princípios do Reino de Deus.
Como buscar ajuda pelo SUS
Quem pode receber atendimento?
Pessoas que perderam o controle sobre as apostas.
Familiares afetados pelo vício de parentes.
Como acessar
- Entre no aplicativo ou site Meu SUS Digital.
- Faça login com sua conta Gov.br.
- Acesse o menu Miniapps.
- Clique em “Problemas com jogos de apostas?”.
- Responda ao autoteste.
- Se o resultado indicar risco moderado ou alto, o encaminhamento para teleatendimento especializado acontece automaticamente.
- Também é possível procurar atendimento em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), que poderá encaminhar o paciente para os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), quando necessário.
Como vencer o vício nas apostas
- Reconheça que o problema existe.
- Procure ajuda profissional o quanto antes.
- Converse com familiares e líderes da igreja.
- Bloqueie aplicativos e contas de apostas.
- Evite acompanhar influenciadores e propagandas de bets.
- Faça um planejamento financeiro.
- Fortaleça sua vida devocional com oração e leitura da Palavra.
- Busque prestação de contas com irmãos maduros na fé.
- Preencha o tempo livre com atividades saudáveis e comunhão cristã.
- Lembre-se de que Deus oferece restauração para quem se arrepende e busca auxílio. “Lancem sobre ele toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês” (1 Pedro 5:7).
Versículos para reflexão
Mateus 6:24: “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro.”
Hebreus 13:5: “Conservem-se livres do amor ao dinheiro.”
Provérbios 13:11: “Quem ajunta aos poucos terá cada vez mais.”
1 Timóteo 6:9-10: “O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males.”
Lucas 12:15: “A vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens.”
Efésios 5:3: “Nem sequer haja entre vocês qualquer espécie de cobiça.”
Comunhão
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