Mundo - Imagens de satélite revelam rastro de destruição após terremotos gêmeos na Venezuela

Mundo - Imagens de satélite revelam rastro de destruição após terremotos gêmeos na Venezuela

 

Uma estreita faixa de terra, apertada entre o mar do Caribe e as montanhas da Cordilheira da Costa, tornou-se o cenário mais devastado da Venezuela. Imagens de satélite capturadas pela empresa de inteligência geoespacial Vantor nesta quinta-feira (25), e comparadas com registros anteriores, mostram com clareza o impacto que os dois terremotos da última quarta-feira (24) causaram em poucas horas no estado de La Guaira.

Onde antes havia edifícios residenciais, agora restam montanhas de concreto. Onde funcionavam armazéns industriais, veem-se estruturas deformadas. Onde ficava uma avenida costeira com hotéis e terminais de contêineres, há apenas vestígios de incêndios e escombros espalhados pelo asfalto.

 Uma imagem de satélite mostra danos na zona industrial de La Guaira, Venezuela, em 25 de junho de 2026, após dois fortes terremotos. Vantor/Handout

Os abalos — de magnitude 7,2 e 7,5 na escala Mw — ocorreram na quarta-feira (24) às 18h04 (horário de Caracas), com um intervalo de apenas 39 segundos entre si. O primeiro teve epicentro a 24 km de San Felipe, no estado de Yaracuy, a uma profundidade de 21,9 km. O segundo, ainda mais intenso, ocorreu perto de Yumare, também em Yaracuy, a meros 10 km de profundidade  o suficiente para concentrar uma enorme energia destrutiva na superfície.

Uma imagem de satélite mostra a Avenida La Playa, em La Guaira, Venezuela, em 8 de maio de 2026, antes de dois fortes terremotos. Vantor/Handout via Reuters


Esse fenômeno, chamado de “doblete” sísmico pelos geólogos, é extremamente raro e consiste em duas grandes rupturas em segmentos de falha adjacentes ocorrendo quase simultaneamente. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), este é o terremoto mais forte registrado na Venezuela em pelo menos 126 anos.

 
Uma vista de satélite mostra danos em um resort e em um terminal de contêineres na Avenida La Playa, em La Guaira, Venezuela, em 25 de junho de 2026, após dois fortes terremotos. Vantor/Handout via Reuters

A destruição vista do espaço

As imagens de satélite documentam danos severos em vários pontos estratégicos de La Guaira, região de 487 mil habitantes que concentra parte substancial da atividade portuária venezuelana:

  • Catia La Mar: A cidade mais populosa da região (com mais de 112 mil habitantes) teve complexos residenciais inteiros reduzidos a escombros, com tubulações expostas e lajes de concreto penduradas no ar.

  • Playa Puerto Viejo: A comparação antes/depois mostra o colapso completo de edifícios que horas antes estavam de pé.

  • Playa Grande: Uma das praias mais frequentadas do litoral central registrou danos estruturais graves em blocos de apartamentos usados por moradores e veranistas.

  • Avenida La Playa: A principal via que percorre a costa apresenta cicatrizes de incêndios, confirmando os relatos de explosões na rede de gás.

  • Infraestrutura comercial: Um resort costeiro local e o terminal de contêineres do porto aparecem severamente danificados nas imagens posteriores aos sismos.

 Uma vista de satélite mostra edifícios de apartamentos danificados em Playa Grande, em La Guaira, Venezuela, em 25 de junho de 2026, após dois fortes terremotos. Vantor/Handout via Reuters

Balanço oficial e resposta à crise

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, classificou a situação como uma “verdadeira tragédia” e confirmou La Guaira como o epicentro dos estragos. O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, informou que a infraestrutura perdida na região corresponde a cerca de 250 edifícios colapsados, concentrados principalmente nas zonas de Caraballeda e Playa Grande.

Números da Tragédia (Balanço de 25 de junho):

  • Mortos confirmados: 188

  • Feridos: 1.520

  • Desaparecidos: 157

Uma vista de satélite mostra edifícios de apartamentos desabados em La Guaira, Venezuela, em 25 de junho de 2026, após dois fortes terremotos. Vantor/Handout via Reuters

Toda a região costeira foi declarada zona de desastre. O principal aeroporto do país (Aeroporto Internacional de Maiquetia, em La Guaira) foi fechado por tempo indeterminado devido a danos graves nas pistas e terminais. Como resposta imediata, as autoridades habilitaram o estádio de beisebol Jorge Luis García Carneiro, o maior do estado, como o principal abrigo temporário para os desabrigados.

Uma vista de satélite mostra edifícios em Playa Puerto Viejo, em La Guaira, Venezuela, em 22 de junho de 2026, antes de dois fortes terremotos. Vantor/Handout via Reuters

Feriado nacional agravou o cenário

O desastre ocorreu justamente durante o feriado da Batalha de Carabobo, que celebra a independência da Venezuela, o que elevou drasticamente o fluxo de visitantes na região litorânea. Muitos dos que estavam em La Guaira haviam descido de Caracas, que fica a apenas 30 km de distância, para passar o dia na praia.

Uma imagem de satélite mostra armazéns danificados em La Guaira, Venezuela, em 25 de junho de 2026, após dois fortes terremotos. Vantor/Handout via Reuters

O fantasma da ‘Tragédia de Vargas’

Para os moradores locais, as cenas reavivam um trauma que nunca cicatrizou. Em dezembro de 1999, essa mesma faixa costeira foi soterrada sob milhões de toneladas de lama, rochas e árvores na chamada Tragédia de Vargas — o pior desastre natural da história recente do país, cujas estimativas variam de 10 mil a 30 mil mortos.

Uma vista de satélite mostra edifícios de apartamentos danificados em Catia del Mar, em La Guaira, Venezuela, em 25 de junho de 2026, após dois fortes terremotos. Vantor/Handout via Reuters

A catástrofe de 1999 apagou bairros inteiros do mapa e levou anos para ser superada. Embora o cenário atual seja diferente — em 1999 o vilão foram os deslizamentos; agora, o colapso estrutural por sismos —, a escala dos danos antecipa uma reconstrução igualmente longa e custosa. O desafio será ainda maior dado o cenário atual da Venezuela, que enfrenta a emergência com uma economia fragilizada, serviços públicos deficitários e um sistema de saúde de capacidade limitada.

Uma imagem de satélite mostra La Guaira, Venezuela, em 25 de junho de 2026, após dois fortes terremotos. Vantor/Handout via Reuters  

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