Aumento persistente dos linfonodos, febre sem causa aparente, perda de peso e suor noturno estão entre os sinais que merecem avaliação médica
Uma “íngua” no pescoço ou em outra parte do corpo é algo relativamente comum em crianças e adolescentes, principalmente após infecções. O que merece atenção é quando o aumento dos linfonodos persiste, não desaparece ou aparece acompanhado de outros sinais, como febre sem causa definida, perda de peso, suor noturno e aumento do abdômen.
Em alguns casos, esse conjunto de sintomas pode estar relacionado a um linfoma, um tipo de câncer que também pode atingir a população infantojuvenil. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que o Brasil registre 7.560 novos casos de câncer infantojuvenil por ano entre 2026 e 2028, considerando pessoas de zero a 19 anos.
Dani Gondim revela diagnóstico de câncer após interpretar personagem com linfoma por Reprodução/Redes Sociais
Entre os linfomas, a ocorrência varia conforme a faixa etária.Os linfomas não Hodgkin, grupo que reúne diferentes neoplasias originadas nos linfócitos, estão entre os mais frequentes na infância. Já o linfoma de Hodgkin ganha maior destaque entre adolescentes e adultos jovens, especialmente na faixa dos 15 aos 29 anos.
“Identificar exatamente qual linfoma está presente é decisivo, porque estamos falando de doenças com comportamentos biológicos diferentes e que podem exigir estratégias terapêuticas também muito distintas”, explica Pedro Henrique Pinto, médico patologista responsável técnico do Hospital da Criança de Brasília José Alencar e membro da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP).
Quais sinais podem indicar linfoma?
O aumento persistente dos linfonodos, popularmente chamados de “ínguas”, é um dos sinais que pode aparecer nos casos de linfoma. Em muitos casos, esses gânglios aumentados são indolores.
Outros sintomas que podem surgir são:
- febre sem causa definida;
- perda de peso sem explicação;
- suor noturno;
- aumento do volume abdominal;
- tosse persistente;
- falta de ar.
A presença desses sinais, isoladamente, não significa que a criança ou o adolescente tenha câncer. Infecções e outras condições também podem provocar alterações semelhantes. A persistência dos sintomas, porém, deve motivar avaliação médica para identificar a causa.
Existem diferentes tipos de linfomaFalar simplesmente em “linfoma” pode reunir doenças bastante diferentes. Entre crianças e adolescentes estão, por exemplo, o linfoma de Burkitt, o linfoma linfoblástico, o linfoma difuso de grandes células B e o linfoma de Hodgkin.
A diferença entre eles é importante porque cada doença pode apresentar comportamento e resposta ao tratamento distintos.O linfoma de Burkitt, por exemplo, apresenta crescimento rápido e pode exigir quimioterapia intensiva em um período relativamente curto. Já o linfoma linfoblástico pode utilizar protocolos semelhantes aos empregados no tratamento de determinados tipos de leucemia.Outros subtipos seguem estratégias próprias.
Biópsia ajuda a identificar o tipo da doença
É nesse momento que o trabalho do patologista ganha importância. A partir da biópsia do linfonodo ou de outro tecido afetado, o especialista analisa as células e utiliza diferentes técnicas para identificar com precisão o tipo e o subtipo do linfoma.
“A partir da biópsia, utilizamos a avaliação microscópica e técnicas como a imuno-histoquímica, que identifica proteínas específicas em amostras de tecido, para dar nome e sobrenome ao linfoma”, explica Cristiane Bedran Milito, médica patologista e hematopatologista, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), presidente da Associação Estadual de Patologia do Rio de Janeiro (APERJ) e membro da SBP. Segundo a especialista, essa classificação é fundamental porque o subtipo da doença influencia o tratamento e o prognóstico.
Diagnóstico também ajuda a escolher o tratamento
Além de identificar o tipo de linfoma, os exames podem revelar características das células tumorais que ajudam a definir as opções terapêuticas disponíveis para determinado paciente.“Por meio da imuno-histoquímica e dos estudos moleculares, podemos identificar características que orientam o acesso a determinadas opções de tratamento, inclusive imunoterapias. A definição feita pelo patologista é o ponto de partida para a conduta oncológica”, explica Pedro.
Em crianças e adolescentes, a escolha do tratamento precisa considerar não apenas o combate ao câncer, mas também os possíveis impactos sobre um organismo que ainda está em desenvolvimento.
Câncer na adolescência vai além do tratamento
Receber um diagnóstico de câncer durante a adolescência pode interferir em diferentes áreas da vida. É uma fase marcada pela busca de autonomia, convivência com amigos, escola e construção de planos para o futuro. Por isso, o tratamento precisa considerar também as necessidades emocionais, sociais e educacionais do paciente.
“O impacto emocional é enorme e precisa ser enfrentado com apoio psicológico, social e educacional”, ressalta Mariana Michalowski, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (SOBOPE) e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Para a especialista, sempre que possível, é importante manter a criança ou o adolescente próximo da escola, dos amigos e de atividades que façam parte de sua rotina.O cuidado, portanto, não termina na definição do subtipo do linfoma ou na escolha da terapia. Além de tratar a doença, a equipe médica precisa considerar a criança ou o adolescente como um todo, preservando, dentro das possibilidades, sua rotina, seu desenvolvimento e seus projetos para o futuro.
POR Perla Ribeiro
da redação FM
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