Conselho do MPF nega tirar chefe das investigações do Banco Master, mas se divide sobre investigá-lo

Conselho do MPF nega tirar chefe das investigações do Banco Master, mas se divide sobre investigá-lo

 


Seis conselheiros votaram contra afastar o procurador-geral dos casos relacionados ao Banco Master. Em outro ponto, Sanseverino, Celso e Camanho votaram pelo arquivamento; Janice, Samantha e José Adônis divergiram e defenderam a designação de subprocurador-geral para aprofundar a análise.

O Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF) formou maioria nesta sexta-feira (25) para não afastar o procurador-geral da República, Paulo Gonet, dos casos relacionados ao Banco Master. O placar está em 6 a 0 contra o afastamento do PGR.

Em outro ponto do julgamento, porém, os conselheiros estão divididos: o placar está empatado em 3 a 3 sobre o aprofundamento da apuração envolvendo Gonet. O relator, Francisco Sanseverino, e os conselheiros Celso de Albuquerque e Alexandre Camanho votaram pelo arquivamento do pedido de investigação. Janice Ascari, Samantha Chantal e José Adônis divergiram e defenderam a designação de um subprocurador-geral da República para aprofundar a análise.

O Conselho Superior do MPF é um órgão composto pelos dez integrantes da cúpula da instituição. Com a ausência de Gonet, nove integrantes participam da votação.

Voto do relator

Sanseverino afirmou que mensagens com referências ao procurador-geral encontradas no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro não podem ser analisadas de forma isolada ou fora de contexto. “Não se pode examinar frases ou troca de mensagens de forma isolada e/ou descontextualizada para não criar uma situação artificial e que não corresponda à realidade dos fatos”, afirmou o relator. Sanseverino concluiu que não há, nos autos, elementos mínimos de materialidade ou autoria de crime atribuível a Gonet.

Por isso, votou contra a instauração do procedimento e considerou prejudicados os pedidos para afastar o procurador-geral das investigações relacionadas ao Banco Master. “Inicialmente, impõe-se destacar que, para dar início à investigação criminal, é necessário existir elementos mínimos da materialidade e da autoria dos fatos”, afirmou. Ao concluir seu voto, o relator afirmou que a atuação do PGR e do Gabinete do PGR seguiu “os princípios da legalidade, da utilidade e eficiência da persecução penal, bem como respeitou o princípio da independência funcional”.

Contato salvo e “amizade íntima”

O relator destacou que a Polícia Federal não encontrou no celular de Daniel Vorcaro contato salvo com o nome “Paulo Gonet” ou “Gonet”. Segundo o voto, também não há registro de conversa direta entre o ex-banqueiro e o procurador-geral. As referências a Gonet foram identificadas principalmente em conversas entre Vorcaro e o advogado Ciro Soares.

Para Sanseverino, a ausência de comunicação direta “já enfraquece a tese da alegada existência de ‘amizade íntima’” entre Vorcaro e o chefe do Ministério Público Federal. Sobre o encontro entre Gonet e Vorcaro em Londres, em abril de 2024, Sanseverino afirmou que se tratou de um episódio “isolado” e “superficial”, em ambiente social e na presença de outras pessoas.

Segundo o relator, ainda que o encontro tenha criado em Vorcaro a expectativa de estabelecer algum tipo de relação, vínculo ou obter vantagem junto ao procurador-geral, os fatos posteriores, depois que Gonet tomou conhecimento das investigações do caso Master, não confirmaram essa eventual expectativa.

Ao analisar a atuação de Gonet nas investigações, Sanseverino afirmou que, a partir de julho de 2025, quando o procurador-geral tomou conhecimento das suspeitas envolvendo o Banco Master, ele adotou medidas para dar apoio institucional aos procuradores responsáveis pelas apurações no Distrito Federal e em São Paulo. O voto afirma ainda que Gonet reconheceu ter falado com Vorcaro uma segunda vez, em 15 de março de 2025.

Ao tratar das mensagens sobre uma possível viagem a Londres em 2025, Sanseverino afirmou que não houve solicitação direta ou indireta de vantagem por parte de Gonet. Segundo o relator, as conversas ocorreram entre Vorcaro e Ciro Soares. “O que se pode colocar de forma bem objetiva é que se trata de conversas de terceiros sem qualquer participação direta ou indireta do PGR”, afirmou. Segundo a manifestação do PGR citada por Sanseverino, Ciro Soares ligou para Vorcaro e passou o telefone para Gonet para uma saudação. O procurador-geral afirmou que a conversa foi breve e não tratou de assunto relevante ou relacionado às suas atribuições profissionais.

Divisão do voto

Sanseverino dividiu a análise em duas partes. Primeiro, afirmou que não cabe ao Conselho decidir sobre eventual impedimento ou suspeição de Gonet nos processos que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF). “Trata-se de questão processual referente à atuação do PGR […] que tramita no âmbito do STF. Assim, a questão da suspeição do PGR deveria ser arguida naqueles autos e caberia ao próprio STF decidir sobre a questão”, afirmou. Depois, analisou se havia elementos mínimos para abrir uma apuração criminal sobre o procurador-geral. Na conclusão, o relator indeferiu os pedidos de instauração do procedimento por “ausência de elementos mínimos de materialidade ou de autoria de crime atribuível ao Procurador-Geral da República”.

A sessão é presidida pelo vice-presidente do colegiado, subprocurador-geral Nicolao Dino. Embora seja o presidente nato do Conselho, Gonet não participa da reunião por figurar como alvo do procedimento. A deliberação é inédita na história do órgão e tem como base referências ao chefe do Ministério Público Federal encontradas em relatórios da Polícia Federal.

Voto de Janice Ascari

Após a conclusão do voto do relator, a conselheira Janice Ascari divergiu de Francisco Sanseverino e acolheu parcialmente a representação. Ela votou pela designação de um subprocurador-geral da República para analisar a notícia-crime e colher informações preliminares. Ascari afirmou que a designação de um subprocurador-geral pelo Conselho não equivale, por si só, à abertura automática de uma investigação criminal. Segundo ela, caberá ao membro eventualmente designado avaliar posteriormente quais providências tomar, inclusive instaurar uma investigação ou promover o arquivamento.

Ao analisar o material reunido pela Polícia Federal, Ascari destacou que o relatório foi elaborado em 72 horas e que a própria PF registrou que a análise não teve caráter exaustivo. Segundo ela, os elementos presentes no documento são de naturezas distintas e não podem receber o mesmo peso. A conselheira afirmou ainda que a simples referência ao nome de Paulo Gonet em mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro ou Ciro Soares não permite concluir, isoladamente, que o procurador-geral tivesse conhecimento ou aderido a eventual pedido de intervenção, nem que tenha praticado ato funcional em benefício de Vorcaro.

Ao analisar os fatos, Ascari afirmou que não há prova de vantagem efetivamente recebida por Gonet nem de que o procurador-geral ou seu filho, Pedro Gonet, soubessem de eventual custeio da viagem planejada para Londres. “Essas circunstâncias não recomendam, neste momento, a instauração imediata de procedimento criminal”, afirmou. A conselheira ponderou, no entanto, que ainda há pontos que precisam ser esclarecidos. “Os elementos atualmente disponíveis demandam o esclarecimento de várias questões pontuais e objetivamente verificáveis. Por exemplo: quem iniciou a consulta sobre a participação de Pedro Gonet, se houve convite, reserva, pagamento, comunicação sobre eventual custeio? Qual foi o conteúdo daquela breve ligação entre Vorcaro e Gonet realizada por intermédio de Ciro? Se houve outras ligações; se houve outras conversas entre Ciro e Paulo; quem é a pessoa e a qual encontro se referia a expressão que Ciro se utilizou ao dizer ‘estou indo ao PG’?”, afirmou.

Ao concluir o voto, Ascari afirmou que os elementos disponíveis ainda não são suficientes para determinar a abertura imediata de uma investigação criminal, mas também não permitem o arquivamento imediato do caso. “Acolho parcialmente a representação para designar um subprocurador ou subprocuradora para conhecer da notícia-crime e das peças a ela vinculadas nesse procedimento”, afirmou. Segundo ela, caberá ao membro designado colher informações preliminares e, com autonomia e independência funcional, decidir posteriormente se promove o arquivamento, instaura um procedimento investigatório criminal ou adota outra providência prevista em lei. A conselheira rejeitou, porém, o pedido de afastamento genérico de Gonet dos atos e procedimentos relacionados ao Banco Master.

Voto de Celso de Albuquerque

O conselheiro Celso de Albuquerque Silva foi o terceiro a votar. Ao analisar os elementos apresentados contra Gonet, ele afirmou que não há comprovação de que Pedro Gonet, filho do procurador-geral, tenha sido convidado para o evento em Londres nem indício de que alguma despesa tenha sido efetivamente paga. “Não há nenhuma mínima comprovação sequer de que o filho do PGR tenha sido convidado. Consequentemente, não há um mínimo indício de que algo tenha sido pago”, afirmou.

Celso também questionou se os elementos relacionados aos contatos entre Gonet e Vorcaro poderiam sustentar a alegação de proximidade entre os dois. O conselheiro citou o fato de que o nome de Gonet não foi encontrado entre os contatos salvos no celular de Vorcaro e afirmou não ver, nesses fatos, possibilidade de uma confirmação futura. Ao tratar da fotografia em que Gonet e Vorcaro aparecem em uma confraternização em Londres, Celso afirmou que a imagem, isoladamente, não permite concluir que tenha havido prática de ilícito, favorecimento ou conflito de interesses. “Verdade. E quais são os outros indícios? Aqui não existe”, afirmou o conselheiro.

Celso afirmou ainda que não está analisando se o Conselho poderia declarar Gonet suspeito ou impedido de atuar nos casos. Segundo ele, a discussão é se os fatos usados para sustentar essas alegações fornecem indícios mínimos de eventual crime de prevaricação atribuído ao procurador-geral. Ao concluir, Celso afirmou não identificar justa causa nem uma linha investigativa idônea que justificasse a abertura de um procedimento investigatório e votou pelo arquivamento, acompanhando o relator.

Voto de Samantha Chantal

Samantha Chantal Dobrowolski acompanhou Janice Ascari e votou pela designação de um subprocurador-geral para aprofundar a análise do caso. Com isso, o placar ficou empatado em 2 a 2.

Para a conselheira, Gonet tinha interesse direto em parte dos fatos relacionados ao caso Banco Master e, por isso, deveria ter se abstido de atuar no procedimento específico em que surgiram informações relacionadas a ele. Segundo Samantha, mesmo que as referências ao procurador-geral tenham sido feitas por terceiros e eventualmente não configurem irregularidades, não cabia ao próprio Gonet avaliar a relevância ou o alcance desses elementos. “Ninguém é juiz nem promotor da própria conduta”, afirmou.

Samantha destacou que Gonet pediu a nulidade de um relatório da Polícia Federal que continha informações relacionadas à própria esfera pessoal do procurador-geral. Para ela, a existência de argumentos jurídicos para esse pedido não afastava o conflito de interesses. A conselheira afirmou ainda que houve falta de autocontenção e de cuidado com a preservação institucional e a ética funcional na atuação de Gonet. Para Samantha, esses elementos justificam o aprofundamento da apuração, sem representar um prejulgamento sobre eventual crime. A conselheira rejeitou, porém, o afastamento genérico de Gonet de todos os casos relacionados ao Banco Master. Segundo Samantha, o dever de abstenção se restringia ao procedimento específico em que havia informações relacionadas ao próprio procurador-geral.

Voto de Alexandre Camanho

Alexandre Camanho de Assis acompanhou integralmente o relator e votou pelo arquivamento do pedido de investigação e contra o afastamento de Gonet dos casos relacionados ao Banco Master. Camanho afirmou que, independentemente de sua opinião pessoal sobre eventual impedimento ou suspeição de Gonet, não cabe ao Conselho Superior do MPF decidir essa questão.

Segundo o conselheiro, se o procurador-geral não se declara impedido ou suspeito em determinado processo, a questão deve ser analisada pelo tribunal onde a causa tramita. No caso das investigações relacionadas ao Banco Master discutidas na sessão, seria o Supremo Tribunal Federal. “O assunto não é tabu, não é secreto, mas o assunto não nos cabe”, afirmou Camanho. “Nesse foro, aqui, isso não poderia ser julgado.”

O conselheiro afirmou ainda que reconhecer, no Conselho, que Gonet atuou em um processo no qual estava suspeito poderia ter repercussão sobre eventual crime de responsabilidade do procurador-geral, cuja competência para julgamento é do Senado.

Voto de José Adônis

José Adônis Callou de Araújo Sá acompanhou a divergência aberta por Janice Ascari e seguida por Samantha Chantal Dobrowolski e votou pelo aprofundamento da apuração preliminar envolvendo Paulo Gonet. O subprocurador afirmou ter “muito apreço” por Gonet e por sua gestão à frente do Ministério Público, mas defendeu que outro membro da instituição deve analisar os elementos que fazem referência ao procurador-geral.

“Não cabe ao STF dizer se tem ou não relevância o conteúdo da informação judiciária no tocante à referência ao procurador-geral da República”, afirmou. “Um membro do Ministério Público não pode atuar na avaliação da relevância de provas e tampouco postular o reconhecimento de nulidades de relatórios de investigação em que ele próprio é mencionado”, acrescentou. José Adônis também criticou a atuação do STF, afirmando haver violações ao sistema acusatório pela Corte, e citou o Inquérito das Fake News como exemplo.

Com os votos de Janice, Samantha e José Adônis, o placar sobre o aprofundamento da apuração ficou empatado em 3 a 3. A sessão prossegue com os votos dos demais conselheiros.

O que está sendo analisado

Na pauta desta sexta, os conselheiros discutem se as referências ao nome de Paulo Gonet contêm elementos suficientes para justificar o aprofundamento de uma investigação criminal e disciplinar ou se o procedimento deve ser arquivado. A análise abrange a conduta do procurador-geral sob três eixos principais: a viagem a Londres, a foto em confraternização e a articulação no CNPG.

Rito da sessão

A reunião é comandada pelo vice-presidente do Conselho, subprocurador-geral da República Nicolao Dino. O vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand, participa normalmente das deliberações e do voto. O relator do procedimento, Francisco Sanseverino, abre os trabalhos apresentando seu parecer. Após o voto do relator, a votação segue a ordem de antiguidade no conselho, votando primeiro o conselheiro mais novo até o mais antigo.

Próximos passos

Se a maioria dos conselheiros votar pela abertura de investigação, um subprocurador-geral da República será designado para conduzir a apuração de forma independente. O designado analisará os dados e apresentará um relatório final ao próprio Conselho. Caso sejam identificados indícios de crime, os fatos serão encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF), foro competente para decidir sobre a eventual abertura de inquérito contra o chefe do MPF.

Citações a Paulo Gonet no caso Master

A análise no Conselho do MPF ocorre após a divulgação de relatórios da Polícia Federal produzidos a partir da extração de dados do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, apreendido durante a Operação Compliance Zero. As mensagens recuperadas pela perícia da PF indicam a existência de interlocução entre o banqueiro e o procurador-geral, realizada majoritariamente por meio do advogado Ciro Soares.

Entre os pontos mapeados nos relatórios estão a viagem a Londres, com registros de mensagens que apontam que Vorcaro autorizou o custeio de despesas de viagem para Pedro Gonet, filho do procurador-geral, em abril de 2025; a foto em confraternização, tirada em 2024 em Londres, na qual Vorcaro aparece sentado próximo a Gonet; a articulação no CNPG, com diálogos de abril de 2024 em que Ciro Soares afirma a Vorcaro ter pedido a intervenção de Gonet para convencer o procurador Georges Seigneur a desistir da disputa pela presidência do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais — três dias depois, Seigneur retirou a candidatura, e Jarbas Soares foi eleito por aclamação; e as mensagens sobre interlocução institucional, em outubro de 2025, nas quais Vorcaro citou o procurador-geral ao pedir a um interlocutor que reforçasse conversas com autoridades para evitar medidas do Banco Central contra a instituição financeira.

Posicionamento de Gonet

Em manifestações anteriores, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, declarou não ter relacionamento de proximidade com Daniel Vorcaro e afirmou que o contato mantido com o banqueiro foi “brevíssimo e banal”. Paralelamente, a Procuradoria-Geral da República apresentou manifestação ao STF defendendo a anulação do relatório elaborado pela Polícia Federal sob a relatoria do ministro André Mendonça. Gonet argumentou que o ministro relator extrapolou suas competências ao determinar apurações sem pedido prévio do Ministério Público.

Contexto

A crise do Banco Master começou com apurações da Polícia Federal e do Banco Central sobre supostas fraudes na cessão de carteiras de crédito estimadas em R$ 12 bilhões, culminando na decretação de liquidação extrajudicial da instituição em novembro de 2025. O ex-dono do banco, Daniel Vorcaro, foi preso preventivamente no aeroporto de Guarulhos enquanto tentava embarcar para o exterior. A derrubada do sigilo de relatórios da PF pelo relator no STF, ministro André Mendonça, expôs trocas de mensagens e registros de encontros de Vorcaro com diferentes autoridades da República. Além das referências a Paulo Gonet, o documento detalhou interações do ex-banqueiro com o ministro Alexandre de Moraes e a existência de contratos de prestação de serviços com o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

Gazeta Brasil

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