Epidemia provocada pela cepa Bundibugyo acumula 2.325 mortes e supera recorde anterior; ONU alerta que vírus mata uma pessoa a cada 30 minutos
O surto de Ebola na República Democrática do Congo tornou-se o mais letal da história do país, acumulando 2.325 mortes e 4.945 casos confirmados, de acordo com dados oficiais divulgados no último fim de semana. O número de óbitos superou o recorde anterior do surto congolês de 2018-2020, que havia deixado 2.299 mortos.
O atual episódio é o 17º surto de Ebola documentado no país e já era o maior em número de contágios antes de quebrar também o recorde de mortes. Em termos absolutos, o surto atual só fica atrás da epidemia na África Ocidental (2014-2016), que causou mais de 11.310 mortes na Guiné, Libéria e Serra Leoa.
Cepa Bundibugyo e taxa de letalidade
A crise sanitária preocupa pela velocidade de propagação, pela expansão territorial e pela ausência de ferramentas sanitárias específicas contra a cepa Bundibugyo. Para essa espécie do vírus, não existe vacina aprovada nem tratamento específico validado. A Organização Mundial da Saúde (OMS) lembrou que essa cepa registrou, em surtos anteriores, taxas de letalidade entre 30% e 50% em Uganda e no próprio Congo.
A taxa de mortalidade atual está em 46,8% — o que significa que quase um em cada dois casos confirmados termina em morte. O índice subiu de cerca de 20% no início de junho para o patamar atual. Especialistas ressaltam que essa evolução não prova maior agressividade do vírus, mas evidencia falhas graves na detecção precoce, na vigilância epidemiológica e no acesso ao tratamento.
Propagação e fatores agravantes
O vírus foi detectado oficialmente em 15 de maio e, desde então, avançou com força em Ituri, província que concentra o epicentro da emergência, além de alcançar outras áreas do leste congolês. A OMS indicou que a transmissão segue em fase intensa.
Especialistas atribuem o agravamento da crise a uma combinação de fatores: violência armada nas zonas afetadas, resistência e desconfiança de comunidades locais em relação às equipes de saúde, infraestrutura médica precária e cortes na ajuda internacional. Thomas Parisch, especialista em saúde pública da organização Médicos Sem Fronteiras, explicou que muitos diagnósticos ocorrem tardiamente e que numerosos pacientes são identificados apenas após morrerem em suas comunidades — padrão que dificulta o rastreamento de contatos e acelera novos contágios.
A OMS informou que foram confirmadas 155 infecções entre profissionais de saúde, resultando em 45 mortes e 68 recuperações.
Resposta internacional
Tom Fletcher, secretário-geral adjunto para Assuntos Humanitários da ONU, anunciou o aporte de R$ 158,6 milhões (US$ 30,5 milhões) adicionais do Fundo Central de Resposta a Emergências, que se somam aos R$ 124,8 milhões (US$ 24 milhões) já destinados ao país e às nações vizinhas. Fletcher alertou que “a epidemia está matando uma pessoa a cada 30 minutos” e pediu rapidez e apoio internacional para conter a tragédia.
Expansão regional e histórico
A crise cruzou fronteiras: Uganda registrou casos vinculados ao mesmo surto, mas conseguiu conter a propagação e declarou o fim da emergência no mês passado, após confirmar 20 casos e duas mortes. A França também notificou um caso importado, sem transmissão secundária.
Surtos de Ebola mais letais da história:
África Ocidental (2014-2016): 28.616 casos e 11.310 mortes
República Democrática do Congo (atual): 4.945 casos e 2.325 mortes
República Democrática do Congo (2018-2020): 3.381 casos e 2.299 mortes
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