O diálogo possibilita a construção da confiança, que gradativamente diminui os “segredos” no dia a dia
Por Patricia Scott
Devo mexer na mochila do meu filho? Leio ou não o diário da minha filha? Preciso ter acesso às senhas das redes sociais dos meus filhos adolescentes? Porta fechada do quarto: bato ou não, antes de entrar? As questões parecem simples, mas, ao mesmo tempo, são desafiadoras para muitos pais, que ficam divididos entre respeitar a privacidade dos jovens e protegê-los das armadilhas cotidianas.
Para a psicóloga Cíntia Piccinini, é importante que o respeito à privacidade seja entendido no sentido de proteger, principalmente quando o filho está na infância, pré-adolescência e adolescência. Ela exemplifica: “Se ele passa a noite inteira trancado no quarto e jogando videogame, por exemplo, permitir tal situação é negligência, não é respeito à privacidade”. Isso porque esse tipo de prática não é saudável para o desenvolvimento.
“Filhos precisam de rotina, limite, disciplina. Eles não podem decidir muitas questões, por falta de maturidade. Então, precisam da intervenção dos pais”, orienta Cíntia, advertindo que autonomia não pode ser misturada com indisciplina.
A especialista destaca que, enquanto estiverem imaturos, em desenvolvimento, a partir do estabelecimento da confiança entre pais e filhos, a privacidade será menos utilizada, já que não terão o que esconder com medo de represálias, por exemplo. Para isso, é essencial um canal de comunicação aberto e saudável, que possa gerar um espaço para que o indivíduo cresça saudável.
De acordo com Cíntia, quando não há relação de confiança, os filhos desejam utilizar o direito de privacidade, justamente porque não querem também desagradar aos pais. Em contrapartida, conforme os filhos crescem, é “necessário que haja espaço para a realização das próprias escolhas, garantindo, assim, a privacidade que deve estar relacionada a cada faixa etária e fase na vida”.
Nesse sentido, segundo ela, os pais precisam compreender que os filhos não vão atendera todas as suas expectativas. “Eles vão ser livres para tomar as decisões”, comenta Cíntia, acrescentando que cabe aos pais mostrar o caminho, ensinar e plantar a semente. “Talvez não seja a escolha que os pais gostariam, mas é preciso respeitar, acompanhar e acreditar naquilo que foi ensinado”.
Monitoramento e diálogo
A psicanalista Patricia Pedro lembra que cada fase dos filhos tem a sua liberdade de privacidade. No entanto, ela deve estar atrelada ao monitoramento e à responsabilidade dos pais, para que consigam moldar o caráter dos filhos. “É preciso respeitar a individualidade e o desenvolvimento do indivíduo, mas com atenção, para que haja proteção”.
Ela enfatiza que, na primeira infância, a criança pode não querer falar como se sente, por exemplo, nem compartilhar algo, o que pode ser respeitado, mas “os pais precisam monitorar, observando o comportamento, para que saibam como agir, visando ao bem-estar do pequeno”.
Na pré-adolescência e na adolescência é preciso ainda mais monitoramento, segundo Patricia, principalmente em relação ao que assistem na internet e ao engajamento deles nas redes sociais. “Não é proibir o acesso, mas instruir e monitorar, estabelecendo horários e conteúdos adequados”. Cabe destacar que existem ferramentas que possibilitam restringir os acessos aos conteúdos nas diferentes mídias digitais.
Patricia destaca a importância do diálogo sem reservas, para que os filhos vejam nos pais um lugar de refúgio, e não de acusação. Assim, a privacidade dos filhos se constitui na autoridade dos pais, e não no autoritarismo.
“É importante instruí-los de forma muito educativa, psicológica, pedagógica e emocional”, expõe e finaliza: “filho é para sempre, e os pais precisam se posicionar como pais para sempre, sendo amigo dos filhos, mas sem perder a autoridade”.
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