A morte do magistério

A morte do magistério

 Somos, afinal, professores ou boiadeiros? Educamos gente ou tangemos gado? Estão matando a nossa profissão e desconfio que a intenção é essa


Dia desses uma noticia, que deveria ser manchete de jornais e chocar o país, passou quase desapercebida: um aluno de uma escola de São José dos Campos colocou um caco de vidro no copo de água da professora, diante da passividade de estudantes que presenciaram o fato. Pouco antes, policiais invadiram uma escola a partir da denúncia de um pai sobre um trabalho escolar a respeito das culturas e mitos afro-brasileiros.

Ao longo da minha experiência de mais de trinta anos em sala de aula, firmei algumas convicções. Uma delas é a de que o magistério não é um sacerdócio. O discurso neste sentido intimida a professora e o professor e legitima a ideia de que devemos mesmo trabalhar em condições adversas e aceitar as coisas como cordeiros mansos, em nome de certa “missão de ensinar”.

Magistério é carreira profissional e o professor deve ser dignamente valorizado pelo exercício de suas funções. Quem quer exercer sacerdócio, virar guru, conduzir multidões ao saber iluminado, deve procurar o seminário, o retiro ou o terreiro mais próximo.

O professor que se acha detentor do saber (eu já me achei em priscas eras), se equivoca. O professor que, por sua vez, embarca no proselitismo barato de achar que quem ensina para ele sempre é o aluno, também escorrega na demagogia mais rasteira. Proporcionar a circulação dos saberes e despertar a curiosidade para a aventura do conhecimento me parece ser a base da nossa função, hoje quase inviabilizada. É assim que a gente ensina e aprende.

Como ensinar e aprender, porém, com as condições que os profissionais do magistério, em sua maioria, têm hoje? Sendo mais explícito. A sociedade espera e acha que nossa função é a de ensinar ou é a de adestrar e conduzir crianças e adolescentes, feito gado, para os currais do mercado de trabalho? Somos, afinal, professores ou boiadeiros? Educamos gente ou tangemos gado? Estão matando a nossa profissão e desconfio que a intenção é essa.

A escola como instituição está em crise. Ela é hoje, no Brasil, estruturalmente seletiva e inimiga da diversidade. Com exceções, continuamos nos baseando na avaliação de resultados (e não na avaliação de processos) sobre critérios supostamente objetivos (provas e testes convencionais, por exemplo).
Esse modelo esconde a não aceitação da diversidade ao usar critérios fechados para avaliar diferentes.

Repito o que escrevi há tempos: o modelo educacional exclusivamente centrado na sala de aula é uma instituição falida (a sala de aula, com exceções, é um espaço estruturado para domesticar e controlar os corpos), o processo de aprendizagem tem que dialogar com a rua, o ensino baseado em avaliações convencionais fracassou, o excesso de conteúdo é um disparate, os currículos normativos produziram conhecimentos vazios e a imposição do cânone ocidental na educação brasileira – como recorte quase exclusivo do saber – é fomentadora de preconceito, intolerância, violência e dor contra os que não se enquadram no padrão uniforme que o cânone preconiza como modelo a ser seguido.

A cereja do bolo da destruição da escola no Brasil é essa boçalidade recente da escola sem partido, que desqualifica o professor e, sobretudo, as alunas e alunos, imaginando que eles sejam marionetes no processo de aprendizagem. Ao lado disso, temos que lidar com pais reacionários, violentos, delirantes, convencidos por cristo-fascistas em púlpitos obscenos de que somos ameaças infernais.

A turma da escola sem partido é aquela que vê a educação, que eu sempre concebi como um campo de experiências inventivas de libertação dos mundos pela cultura, como um espaço de adestramento para o mercado e produção em larga escala de pessoas adoentadas ou descartáveis.

Quem pode ajudar a subverter isso, sem delírios salvacionistas e sacrifícios, mas com trabalho digno e valorizado, são as professoras e professores. Estamos, todavia, mais perto de morrer com uma lâmina de vidro atravessada na garganta ou espancados por fanáticos alucinados, que de alcançar o objetivo de educar para a autonomia e a liberdade.



Luiz Antonio Simas

Professor de história, educador popular, escritor, poeta e compositor. Tem mais de 30 livros publicados sobre as culturas populares do Brasil. Foi finalista do Prêmio Jabuti em quatro ocasiões e ganhador do mesmo prêmio na categoria Livro do Ano de 2016, em parceria com Nei Lopes, pelo Dicionário da história social do samba (Civilização Brasileira, 2015). Suas canções foram gravadas por artistas como Maria Rita, Marcelo D2, Rita Benneditto, Douglas Germano, Moyseis Marques, Lúcio Sanfillippo e Fabiana Cozza.

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