Equipes de saúde enfrentam desafios geográficos e adaptam estratégias de comunicação para levar imunização a 11 mil pessoas no DSEI Alto Rio Purus.
© Kislane de Araújo Dias/Arquivo Pessoal
Levar a vacinação a populações em territórios indígenas de difícil acesso, como a região atendida pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Purus, vai muito além de uma simples tarefa técnica. Com 155 aldeias distribuídas entre Acre, Amazonas e Rondônia, a logística exige navegação fluvial, uso de veículos 4×4 e, em situações críticas, apoio aéreo. Para garantir a eficácia dos imunizantes, a rede de frio precisa ser rigorosamente mantida entre 2º e 8º Celsius, utilizando freezers em barcos e caixas térmicas especializadas durante incursões que podem durar até 40 dias.
A complexidade, contudo, não é apenas geográfica. O sucesso da imunização depende de um profundo respeito à diversidade cultural e à estrutura política de cada um dos nove povos atendidos. Evandro Apurinã, coordenador do DSEI, destaca que a imposição não funciona. “É preciso negociar e entender a estrutura de cada povo”, explica, referindo-se aos desafios de dialogar com lideranças específicas e respeitar o tempo e as crenças das comunidades.
Capacitação e comunicação estratégica
Para alinhar boas práticas e atualizar profissionais que atuam na ponta, a enfermeira Evelin Plácido, da CapacitaImune, ministrou recentemente, em Rio Branco, um curso voltado ao manejo correto das vacinas e ao fortalecimento da comunicação. O treinamento destaca que, no contexto indígena, a vacina é que precisa buscar o indivíduo. A capacidade de transmitir segurança sobre os efeitos adversos e o valor da proteção imunológica em rodas de conversa é apontada como a ferramenta mais eficaz para adesão das comunidades.
A enfermeira Kislane de Araújo Dias, responsável pelo planejamento de imunizações no DSEI Alto Rio Purus, reforça que a atuação é baseada em um censo vacinal minucioso. “A gente não chega e impõe. Explicamos que o imunobiológico confere proteção contra doenças a que os povos indígenas estão suscetíveis”, afirma. Esse trabalho preventivo ganhou contornos de urgência em 2024, quando uma seca histórica na Amazônia isolou comunidades e forçou um plano de contingência aéreo e fluvial para conter um surto de influenza que vitimou duas crianças.
O futuro com saúde
O calendário do Programa Nacional de Imunizações do SUS, que já conta com mais de 20 vacinas, segue sendo a principal proteção para grupos vulneráveis. Além das vacinas de rotina, populações indígenas, ribeirinhas e quilombolas recebem imunizantes específicos, como a vacina contra a raiva, devido ao risco de exposição a animais silvestres.
Para Natália Diniz, profissional que atua em Boca do Acre (AM), o trabalho itinerante é gratificante. “No território extramuro, a gente é um convidado. Precisamos pedir permissão e respeitar a rotina daquela casa”, diz. A vacinação nas aldeias, segundo ela, vai além da prevenção individual; é um compromisso ético e humanitário que garante às futuras gerações de indígenas a oportunidade de um futuro com saúde e dignidade dentro de seus próprios territórios.
Por Tâmara Freire – Repórter da Agência Brasil - 20
da redação FM


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