Brasil bane antibióticos para engorda animal que podem gerar resistência bacteriana

Brasil bane antibióticos para engorda animal que podem gerar resistência bacteriana

 Medida aproxima país de exigências sanitárias adotadas por mercados como a União Europeia


(Folhapress) – Em decisão inédita, o governo federal proibiu o uso de antibióticos como promotores de crescimento na pecuária, alinhando-se a um movimento mundial impulsionado pelo avanço da resistência bacteriana, considerada uma das principais ameaças globais à saúde. A restrição não afeta o uso terapêutico.

A medida também aproxima o país de exigências sanitárias adotadas por mercados como a União Europeia, que há anos restringem esse uso e passaram a impor padrões mais rigorosos para importação de carnes.

Publicada no Diário Oficial da União na última sexta-feira (24), a portaria 1.617/2026, da Secretaria da Defesa Agropecuária/Ministério da Agricultura e Pecuária, veta a importação, fabricação, comercialização e uso desses aditivos com finalidade zootécnica e determina o cancelamento dos registros dos produtos atingidos, além de prever prazo de transição para retirada do mercado.

A medida atinge diretamente cinco antimicrobianos amplamente usados em sistemas intensivos de produção animal – avoparcina, bacitracina, bacitracina de zinco, bacitracina metileno dissalicilato e virginiamicina -, um dos aditivos mais difundidos no país, especialmente em granjas e criações industriais.

Embora o controle da venda de antibióticos para humanos exista no Brasil há mais de dez anos, com retenção de receita para conter o uso indevido, especialistas vêm alertando que o maior volume desses medicamentos circula fora das farmácias.

Estudo da Proteção Animal Mundial em parceria com a Universidade de Bolonha estimou que cerca de 75% dos antibióticos vendidos no mundo são destinados a animais, e que 80% dos usados em fazendas industriais não servem para tratar doenças, mas para acelerar crescimento ou prevenir infecções favorecidas pelo próprio modelo intensivo de criação.

Para a epidemiologista Ethel Maciel, professora titular da Universidade Federal do Espírito Santo, a portaria representa a tradução concreta de compromissos assumidos pelo Brasil em fóruns internacionais. Ela lembra que, em setembro de 2024, a Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) aprovou uma declaração de alto nível sobre resistência antimicrobiana, com compromissos para redução do problema.

Segundo Maciel, a medida também é fruto do trabalho do comitê interministerial de Uma Só Saúde (One Health), criado naquele mesmo ano para formular o plano nacional sobre o tema, envolvendo os ministérios da Saúde, Agricultura e Meio Ambiente. Ela estava à frente da Secretaria de Vigilância em Saúde à época das discussões.

“Esse grupo tem trabalhado muito para a redução do uso de antibióticos para crescimento da produção. A gente acaba comendo essa carne de animais e aves que cresceram de forma mais acelerada por conta de antimicrobianos. Há toda uma discussão sobre o impacto na saúde humana desses usos.”
Maciel destaca que o debate também ganhou peso com pressões regulatórias internacionais. A União Europeia endureceu regras sobre uso de antimicrobianos e importação de proteínas animais, influenciando países exportadores.

Especialistas veem a medida como um marco, embora ponderem que seu impacto sobre a saúde humana depende de políticas mais amplas. Carlos Veiga Kiffer, professor de infectologia da Unifesp e pesquisador líder do Grupo de Análise em Infecções e Antimicrobianos (Gaia), a proibição corrige um atraso regulatório brasileiro, mas alerta contra simplificações.

Sob a perspectiva de One Health, afirma, a agropecuária é apenas uma das dimensões da resistência antimicrobiana, ao lado dos hospitais, do uso comunitário de antibióticos e de fatores ambientais.
“É uma medida a ser comemorada, mas não dá para confundir a narrativa de que o controle veterinário vai, por si só, resolver o problema humano”, diz.

Segundo ele, medidas em saúde humana seguem tendo peso maior no enfrentamento da resistência, como controle de infecções hospitalares, vigilância genômica, uso racional de antibióticos e educação médica. Questões ambientais – como descarte inadequado de medicamentos, contaminação de rios e afluentes – também entram nessa equação. Ainda assim, Kipfer considera a portaria importante por reduzir uma pressão seletiva relevante em larga escala.

Bactérias resistentes podem emergir e circular em um mesmo ecossistema entre animais, humanos e ambiente, seja por água, solo, resíduos ou alimentos. No Brasil, o problema é frequentemente associado às cadeias intensivas de aves e suínos. Pesquisa da USP encontrou uso médio de antibióticos na produção de suínos bem acima da média mundial, revelando a dimensão do desafio.

Críticos do modelo intensivo argumentam que antibióticos têm sido usados para compensar condições de manejo que favorecem adoecimento. Altas densidades de animais, estresse crônico e baixa diversidade sanitária ampliam a dependência desses medicamentos.

Nesse contexto, a nova portaria é vista não apenas como uma medida sanitária, mas como uma mudança estrutural na política de produção animal brasileira.

Em nota, a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) informa que acompanhou e participou dos debates envolvendo a portaria, que contou com contribuições do setor produtivo.

“O desenvolvimento de novas normativas avança no objetivo de promover o uso racional de antimicrobianos, por meio de campanhas, treinamentos e debates regulatórios – como o estabelecido pela portaria.”

A ABPA ressalta que o alinhamento com as diretrizes da OMSA (Organização Mundial de Saúde Animal) e com as exigências dos principais mercados importadores é considerado estratégico. Para a entidade, os avanços regulatórios reforçam a integridade da proteína brasileira e sua aderência às práticas internacionais de sanidade e produção.


Gazeta Brasil

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