Um novo tratamento experimental pode representar um avanço significativo no combate ao câncer de pâncreas metastático, uma das formas mais letais da doença. Pela primeira vez, uma terapia direcionada contra a família de proteínas RAS conseguiu dobrar a sobrevida dos pacientes, tanto no tempo total de vida quanto no período em que a doença não avança.
O câncer de pâncreas é considerado um dos mais agressivos e difíceis de diagnosticar precocemente, já que costuma evoluir de forma silenciosa e sem sintomas nas fases iniciais. Isso faz com que muitos pacientes sejam identificados já em estágio avançado, quando as opções terapêuticas são mais limitadas.
O medicamento oral daraxonrasib (também chamado RMC-6236), desenvolvido pela empresa de biotecnologia Revolution Medicines, apresentou resultados animadores em um ensaio clínico internacional com 501 pacientes.
No estudo de fase 3, pacientes que receberam o fármaco viveram, em média, 13,2 meses, enquanto aqueles tratados com quimioterapia padrão tiveram média de 6,7 meses. Os dados representam uma redução de 60% no risco de morte em comparação ao tratamento convencional.
O medicamento é administrado por via oral, uma vez ao dia, e atua bloqueando as proteínas RAS, associadas ao crescimento tumoral na maioria dos casos de câncer de pâncreas. Essa família de genes inclui KRAS, HRAS e NRAS, cuja mutação está diretamente ligada ao desenvolvimento da doença.
Segundo os pesquisadores, o avanço abre uma nova possibilidade terapêutica para tumores que, até agora, respondiam apenas parcialmente à quimioterapia tradicional, geralmente acompanhada de efeitos colaterais intensos.
Embora os resultados sejam considerados promissores, os especialistas ressaltam que o daraxonrasib não representa uma cura para o câncer de pâncreas metastático, mas sim um ganho relevante em tempo de vida e controle da progressão da doença.
O ensaio clínico envolveu pacientes dos Estados Unidos, Europa e Japão, todos previamente tratados com quimioterapia. Metade dos participantes recebeu o novo medicamento, enquanto a outra metade seguiu com o tratamento convencional.
Entre os efeitos colaterais mais relatados estão erupções cutâneas, náuseas, vômitos, diarreia e úlceras na boca. Ainda assim, a empresa afirma que o perfil de segurança é considerado administrável e sem novas preocupações relevantes.
Após os resultados, a Revolution Medicines solicitou revisão prioritária à agência reguladora americana FDA, o que pode acelerar o processo de aprovação do medicamento. A empresa já havia recebido a designação de “Terapia Inovadora”, mecanismo que acelera avaliações de tratamentos promissores.
A farmacêutica também estuda expandir o uso do daraxonrasib para outros tipos de câncer com mutações RAS, como câncer de pulmão de células não pequenas e câncer colorretal, que também apresentam altas taxas dessas alterações genéticas.
Segundo a Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), o câncer de pâncreas afeta mais de 500 mil pessoas por ano em todo o mundo e causa cerca de 470 mil mortes. É o sexto tipo de câncer mais letal globalmente, apesar de não estar entre os mais comuns.
A baixa taxa de sobrevivência está relacionada principalmente ao diagnóstico tardio e à falta de tratamentos altamente eficazes nas fases avançadas da doença.
O daraxonrasib é visto como o primeiro avanço relevante em décadas para um grande grupo de pacientes, ao demonstrar que é possível atingir diretamente proteínas antes consideradas difíceis de tratar.
Outro avanço promissor: combinação experimental também amplia sobrevida
Além do daraxonrasib, outro estudo recente também trouxe resultados animadores no tratamento do câncer de pâncreas metastático. Um ensaio liderado pela Universidade Northwestern avaliou uma terapia experimental chamada elraglusib em combinação com quimioterapia.
O estudo envolveu 233 pacientes em 60 centros da América do Norte e Europa. Os resultados mostraram que a combinação praticamente dobrou a taxa de sobrevivência em um ano: 44% dos pacientes tratados com o novo medicamento estavam vivos após 12 meses, contra 22% no grupo que recebeu apenas quimioterapia.
Além disso, o risco de morte caiu 38%, e a mediana de sobrevida subiu de 7,2 para 10,1 meses. Em dois anos, 13% dos pacientes do grupo experimental ainda estavam vivos, algo não observado no grupo controle.
O elraglusib atua bloqueando a proteína GSK-3 beta, que favorece o crescimento tumoral e enfraquece a resposta do sistema imunológico, permitindo que o próprio corpo ataque o câncer.
O medicamento apresentou efeitos colaterais semelhantes aos da quimioterapia tradicional, permitindo que a maioria dos pacientes mantivesse suas atividades diárias.
Os pesquisadores planejam agora avançar para uma fase 3 do estudo para confirmar os resultados e avaliar a eficácia em larga escala.
Gazeta Brasil
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