Um estudo conduzido por cientistas dos Estados Unidos e da Austrália identificou que adolescentes que passaram a consumir cannabis apresentaram menor evolução em habilidades de memória e pensamento em comparação com aqueles que não fizeram uso da substância.
Os pesquisadores consideram que essas diferenças no desenvolvimento cognitivo estão associadas ao consumo, mas ressaltam que não é possível afirmar uma relação de causa direta entre o uso da cannabis e as alterações observadas.
Segundo os cientistas, o cérebro na adolescência passa por um período de alta sensibilidade, no qual fatores externos podem influenciar diretamente funções como memória, atenção e velocidade de processamento mental.
A pesquisa reuniu especialistas da Universidade da Califórnia em San Diego, da Universidade de Wisconsin-Milwaukee, da Huestis & Smith Toxicology e da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, além da Universidade de Sydney, na Austrália.
A investigação fez parte do projeto Desenvolvimento Cognitivo do Cérebro Adolescente e acompanhou 11.036 jovens, com idades entre 9 ou 10 anos e 16 ou 17 anos.
Foram aplicados testes de memória, atenção, linguagem e velocidade de raciocínio, além de autodeclarações e análises de cabelo, urina e saliva para identificar o consumo de cannabis.
No início do estudo, alguns adolescentes que posteriormente passaram a consumir cannabis apresentavam desempenho semelhante ou até superior ao de seus pares. No entanto, ao longo do tempo, esse grupo demonstrou menor evolução nas habilidades cognitivas avaliadas.
Os pesquisadores também analisaram os principais compostos da planta. Em um grupo menor, adolescentes com presença de THC apresentaram menor avanço na memória. Já aqueles com traços apenas de CBD não apresentaram o mesmo padrão, embora o número reduzido de casos limite conclusões mais firmes.
A pesquisadora Natasha Wade afirmou:
“A adolescência é um momento crítico para o desenvolvimento cerebral, e o que vemos é que os adolescentes que começam a consumir cannabis não melhoram ao mesmo ritmo que seus pares”.
Ela acrescentou:
“Esses resultados apontam ao THC como um provável motor das mudanças que estamos vendo”.
Segundo os autores, mesmo diferenças consideradas pequenas podem ter impacto no desempenho escolar e na rotina diária.
O estudo também alerta que alguns produtos rotulados como CBD podem conter THC, o que dificulta a análise dos efeitos isolados de cada substância.
Os pesquisadores recomendam que o início do consumo de cannabis seja adiado para preservar o desenvolvimento cerebral e defendem que famílias e adolescentes tenham acesso a informações claras diante do aumento da disponibilidade da substância.
Eles reforçam, no entanto, que o estudo não comprova causalidade direta entre o uso da cannabis e as mudanças cognitivas observadas, já que outros fatores podem influenciar os resultados, como ambiente familiar, saúde mental e uso de outras substâncias.
Uma das limitações apontadas foi o pequeno número de participantes expostos exclusivamente ao CBD, o que impede conclusões mais robustas sobre esse componente.
O acompanhamento da pesquisa deve continuar na fase adulta dos participantes, com o objetivo de avaliar possíveis efeitos de longo prazo do consumo de cannabis.
Após a divulgação do estudo, Natasha Wade destacou:
“Atrasar o uso de cannabis favorece o desenvolvimento cerebral saudável”.
Gazeta Brasil
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