Mulheres que moldaram a fé e a história da igreja no Brasil

Mulheres que moldaram a fé e a história da igreja no Brasil

 

Pioneiras que enfrentaram perseguições, lideraram missões e contribuíram para a fé e os direitos das mulheres no país

Por Mirella Dias 

Muito se fala de homens que fizeram diferença e impactaram a história da igreja protestante no Brasil ao longo do tempo, mas existem mulheres que foram significativas para a construção da igreja brasileira, em momentos de perseguição. Mulheres como Sarah Kalley, Marta Watts, Marcolina Ferreira, Ana Bagby e Cecília Rodrigues que não mudaram apenas a realidade do protestantismo, mas também contribuíram para a construção dos direitos civis das mulheres em um período tão delicado no  Brasil.   

Sarah Kalley 

Missionária inglesa radicada no Brasil, Sara, órfã de mãe, cresceu em uma família rica que recebia missionários de diversos lugares. Influenciada pelo pai, superintendente da Escola Dominical, desde cedo abraçou a fé cristã e passou a ensinar.

Seu ministério no Brasil começou após o casamento com Robert Kalley, médico e missionário. O casal chegou ao Rio de Janeiro em 1855, durante um surto de cólera. Enquanto o marido cuidava dos doentes, Sara iniciou, em 19 de agosto de 1855, uma aula bíblica em casa para cinco crianças, contando a história do profeta Jonas, dando origem à primeira escola dominical.

Voltada à educação espiritual, lutou pela criação de uma escola primária para mulheres. Após anos de pressão sobre o governo imperial, foi fundada a Escola Evangélica de Instrução Primária.

Mesmo enfrentando perseguições e sem apoio missionário, o casal manteve o trabalho. Sara ensinava, organizava atividades, traduzia materiais e auxiliava na preparação de sermões. Em 1867, criou uma classe para jovens, em 1871, fundou uma sociedade feminina.

Em 1876, o casal mudou-se para a Escócia. Após a morte do marido, em 1888, Sara fundou, em 1892, uma missão de apoio ao Brasil. Faleceu em 1907, sendo lembrada por sua contribuição ao início do trabalho evangélico no país.

No primeiro hinário em português, dos 182 hinos atribuídos ao marido, 169 foram produzidos por Sara.

Martha Watts

Mulheres que moldaram a fé e a história da igreja no Brasil
Educadora e missionária, Martha Watts semeou fé e conhecimento no Brasil, fundando escolas e impactando gerações por meio do ensino cristão. Foto: Reprodução

Nascida em 1845, em Bardstown, cresceu em uma família metodista envolvida com a fé. Watts sempre foi comprometida com a obra e com a educação. Logo cedo, dedicou-se aos estudos e tornou-se professora.

Após perder seu noivo depois da Guerra de Secessão (1861–1865), Martha envolveu-se na sociedade missionária feminina da Igreja Metodista, que enviava missionárias ao exterior. Com forte vocação missionária, foi enviada ao Brasil, país pelo qual tinha grande desejo de atuar. Mesmo solteira, desembarcou no interior de São Paulo, em Piracicaba.

Iniciou seu ministério e, no dia 13 de setembro de 1881, inaugurou o Colégio Piracicabano. Mesmo começando com apenas uma aluna, manteve-se fiel e, com dedicação, viu o colégio crescer. Martha buscava conciliar estudos seculares com estudos bíblicos em suas aulas. Diariamente, realizava momentos de devoção e cânticos, com o objetivo de evangelizar e ensinar meninas e meninos.

Conhecida como “semeadora de escolas”, Watts fundou outras duas instituições: o Colégio Americano, em Petrópolis, e o Colégio Izabela Hendrix, em Belo Horizonte. Ao longo da vida, não se casou e permaneceu fiel ao seu propósito, dedicando-se até o fim ao que amava: ensinar e pregar o evangelho.

Ana Luther Bagby

Mulheres que moldaram a fé e a história da igreja no Brasil
Missionária incansável, Ana Luther Bagby levou o Evangelho ao Brasil, marcou vidas e ajudou a firmar as bases do trabalho batista no país.

A primeira mulher batista do Texas a se tornar missionária no exterior, nasceu no Missouri, Estados Unidos. Aos 11 anos, decidiu seguir a Cristo. Ao lado de seu marido, William Bagby, veio para o Brasil em 1881, estabelecendo-se em Salvador. Apaixonados por missões, fundaram a Primeira Igreja Batista Brasileira na capital baiana.

Com o coração voltado para o Reino, Ana pregava o evangelho onde estivesse. A primeira pessoa que aceitou Jesus por meio de seu testemunho foi sua empregada, Emília. As primeiras conversões batistas no Brasil foram de mulheres. Mesmo diante de perseguições, os Bagby se mantiveram fiéis e fundaram o Colégio Batista em São Paulo. Ana também reunia mulheres para ensinar as Escrituras.

Junto com seu marido, abriu outra igreja, a Batista da Lapa, em São Paulo. Mesmo perto de sua morte, Ana Luther Bagby não deixou de pregar o evangelho.

Marcolina Ferreira

Marcolina Ferreira, alagoana, ficou órfã de pai aos 8 anos e foi ensinada a ter pavor de crentes. No entanto, teve um encontro com Cristo por meio de seu vizinho. Mesmo sofrendo perseguição da família, não desistiu da fé e, com muita insistência, conseguiu ser batizada. Em 1909, ao se mudar para Maceió, iniciou sua obra missionária. Conheceu o trabalho dos batistas e, aos 23 anos, em uma escola ligada à igreja batista, despertou o desejo de fazer missões no interior do país, em lugares onde poucos querem ir.

Em 1932, foi chamada para abrir a primeira escola batista no sertão. Marcolina percorreu regiões do Nordeste ao Norte realizando missões, enfrentando longas distâncias a pé e sofrendo com dores crônicas. Posteriormente, foi curada e deixou de sentir essas dores. Mesmo em idade avançada, não parou de pregar. Sentada em frente à sua casa, anunciava o evangelho a todos que passavam por sua rua.

Cecília Rodrigues

Nascida em 1885, na Paraíba, filha de pescador, conheceu Cristo após seus pais acolherem em casa um colportor,  vendedor ambulante de Bíblias e livros religiosos, que estava sendo agredido por um delegado. Aos 8 anos, ouviu a mensagem do evangelho por meio desse homem, que pregou a toda a sua família. Com o sonho de ser professora, foi acolhida por missionários para estudar. Passou por diversos estados brasileiros e, em 1904, ingressou na Escola Americana, onde seus talentos foram desenvolvidos e reconhecidos.

Em 1908, ao retornar ao Maranhão, destacou-se como cidadã ativa, defendendo o voto feminino. Mesmo sem poder votar, ensinava homens analfabetos a assinarem o próprio nome para que pudessem exercer esse direito. Ao se casar com o reverendo Cícero Siqueira, mudou-se para Minas Gerais, onde, ao lado do marido, pastoreou e liderou um colégio evangélico. O impacto de seu trabalho foi tão grande que a cidade passou a ser conhecida como “cidade sem pecado”, pois há anos não se registravam roubos ou mortes.

Além de sua atuação local, Cecília foi fundamental para a Igreja Presbiteriana, contribuindo para a organização do trabalho feminino no Brasil. Em 1946, visitou vários estados dos Estados Unidos, onde falou sobre seu ministério e o Brasil, impressionando o público por seu domínio do inglês e sua inteligência, tornando-se uma referência. Por isso, recebeu a Medalha da Inconfidência. No dia 15 de outubro de 1960, Dia do Professor, Cecília faleceu enquanto lecionava.

Em meio a cenários difíceis, marcados por perseguições, no início da igreja protestante no Brasil, essas cinco mulheres mantiveram-se fiéis às suas missões, seguindo o propósito de Deus e deixando marcas profundas na história da igreja brasileira. 

Essa matéria foi inspirada pelo canal Carol Bazzo

Mirella Dias é estagiária sob supervisão da jornalista Joviana Venturini 

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