Descubra como a leitura bíblica pode impactar sua vida além do dever espiritual
A maioria dos cristãos não tem dúvidas sobre a importância de ler a Bíblia. Eles sabem disso. Ouviram essa orientação na escola dominical, em séries de sermões, em grupos pequenos e em planos ambiciosos de leitura de janeiro, que prometem que este será o ano em que finalmente conseguirão ler o livro de Números sem desistir.
No entanto, a questão mais difícil não é se devem ler, mas se foram ensinados a ler a Bíblia da maneira correta. Para muitas pessoas, a leitura da Bíblia tornou-se uma tarefa espiritualizada. A meta é atravessar o capítulo, encontrar a lição moral, destacar a frase útil, fechar o aplicativo e seguir adiante. Por fora, parece uma disciplina fiel, mas, em algum momento, as Escrituras deixam de formar o leitor para se tornarem apenas algo a ser concluído.
O verdadeiro propósito da leitura bíblica
Tim Mulgrew acredita que muitos cristãos têm perdido o foco principal. “Estamos realmente deixando de aproveitar a mensagem que a Bíblia tem para nós, indivíduos”, afirma. “Lemos como se fosse um livro didático ou um livro de história. E realmente é um excelente livro de história, sem dúvida. Mas se tivesse sido feito para isso, teria detalhes muito mais específicos, o que não ocorre.”
Mulgrew, autor do livro The Book of Us, não sugere que se abandone o contexto histórico. Ele reconhece que história e compreensão das culturas antigas são importantes. Porém, acredita que muitos param na etapa errada: aprendem as linhas do tempo, as categorias teológicas e as interpretações “corretas”, e depois se perguntam por que as Escrituras ainda parecem distantes.
O problema não é a Bíblia ser irrelevante. O problema é que muitos de nós aprendemos a mantê-la fora de nós mesmos. “Quando conseguimos nos ver nas Escrituras, elas se tornam mais significativas”, explica Mulgrew. “Em vez de pensar: ‘Aqui está algo que aconteceu com alguém há dois mil anos. O que isso significa para mim?’ — devemos lembrar que Deus não precisa da Bíblia para ser Deus. Nós precisamos da Bíblia para aprender a viver com e para Deus.”
Enxergando a si mesmo nas Escrituras
Isso soa reconfortante até perceber o que essa abordagem exige. Encontrar-se nas Escrituras não significa automaticamente se identificar como Davi enfrentando Golias, Ester diante do rei ou Pedro pregando no Pentecostes. Às vezes, significa reconhecer que você também pode ser o faraó, endurecendo seu coração enquanto insiste que é o razoável. Outras vezes, é perceber que você é o povo de Israel, recém-saído de um milagre e já convencido de que Deus os abandonou porque o próximo passo parece inconveniente.
A maioria não lê a Bíblia assim naturalmente. Lemos as falhas bíblicas como se assistíssemos a um filme de terror do conforto do sofá, certos de que jamais entraríamos no porão. “Nossa natureza humana quer apontar para o outro e dizer: ‘Veja, ele errou. Eu sou melhor’”, diz Mulgrew. “Quando você lê as Escrituras e encontra os vilões — sejam os israelitas, os fariseus ou quem for — substitua o nome deles pelo seu.”
É um exercício simples, e por isso mesmo desconfortável. Leia a história do bezerro de ouro e insira seu nome. Leia os avisos contra a hipocrisia religiosa e resista à vontade de pensar imediatamente em alguém com podcast. Leia os discípulos confundindo Jesus e considere que sua própria clareza pode não ser tão inquestionável quanto imagina.
A Bíblia se torna desconfortável rapidamente quando ninguém mais é o problema. “Rimos e dizemos: ‘Olha que bobos’”, comenta Mulgrew. “Mas fazemos isso na vida diária. Temos coisas que servem como nossos deuses.”
Ídolos modernos e o verdadeiro valor da Bíblia
Os ídolos modernos geralmente parecem mais respeitáveis que um bezerro de ouro. Vêm com marcas, convites de calendário, planejamento financeiro, desejos românticos e a ilusão de controle. Talvez não derretamos ouro para fazer estátuas, mas somos muito bons em precisar de algo visível e manejável para nos assegurar que Deus está perto e que a vida está indo bem.
Mulgrew alerta que até a própria Bíblia pode se tornar parte do problema quando os cristãos reverenciam o objeto e resistem à mensagem que ele carrega. “A Bíblia pode virar um ídolo”, explica. “Ela é apenas um conjunto de páginas de couro, tinta e papel que traz a mensagem de Deus para nós. Não é a Bíblia em si.” Em outras palavras, é possível defender, citar e discutir a Bíblia, mas ainda assim recusar deixar que ela confronte nosso orgulho, medo, ressentimento ou necessidade de estar certo.
Além da leitura superficial: o desafio de abrir o coração
Uma das formas mais fáceis de evitar essa confrontação é reduzir a Bíblia a um conjunto de regras. Muitos cristãos herdaram essa visão de forma sincera, ensinados direta ou indiretamente que as Escrituras são principalmente uma lista divina de comportamentos para evitar, princípios para aplicar e limites para impor. O resultado pode ser sério, mas espiritualmente vazio.
“Nossa natureza humana tende a encontrar regras e regulamentos nas Escrituras”, observa Mulgrew. “Fazemos isso tirando trechos do contexto. Somos nós que transformamos a Bíblia em um livro de regras.” Depois, os cristãos se perguntam por que pessoas fora da igreja associam o cristianismo a uma vida de restrições e listas para organizar encontros.
Esse mesmo instinto aparece na forma como lemos. Um plano de leitura dá forma ao caos, e isso pode ser bom. Mulgrew não é contra disciplina, mas acredita que planos podem ensinar silenciosamente a valorizar mais a conclusão do que a atenção.
“O problema do plano de leitura é que ele se parece muito com a leitura ocidental”, explica. “Tem começo, meio e fim. E se tem começo e fim, então o objetivo é terminar, porque é assim que somos programados.”
As Escrituras nem sempre colaboram com essa programação. Elas repetem, circulam, contam histórias sem desfechos claros, permanecem em poesia, profecia, cartas e leis que podem parecer desconexas quando tentamos transformar a formação espiritual em um hábito matinal de 12 minutos antes que o Slack estrague o dia.
Uma leitura mais profunda e transformadora
Mulgrew defende que a melhor forma de ler começa com desacelerar. “Leia um trecho e não tenha pressa de passar para o próximo”, aconselha. “Se você não entendeu esse, por que acha que vai entender o seguinte?” Pare de correr. Preste atenção. Deixe o texto falar.
Em vez de perguntar “Quanto eu li hoje?”, pergunte “Por que Deus colocou isso aqui?”. Por que esse detalhe? Por que essa pessoa? Por que essa interrupção estranha? Por que essa falha? Por que preservar esse momento por milhares de anos se não tem algo a dizer além de que “pessoas antigas eram bagunçadas”?
“Não leia com o objetivo de terminar”, conclui Mulgrew. “Leia com o objetivo de nunca terminar.” Para cristãos acostumados a pensar em produtividade, isso pode parecer um pesadelo. Mas as Escrituras não são um curso para concluir. São um lugar para onde você volta porque continua mudando, e o que você pode ouvir muda junto com você.
Um trecho que você leu por alto aos 20 anos pode te impactar profundamente aos 35, porque a vida finalmente lhe deu o vocabulário para entendê-lo. A história sempre esteve lá. Você é que ainda não estava pronto para ver seu medo, ambição, solidão ou esperança nela.
Mulgrew deixa claro o perigo de conhecer as Escrituras sem ser transformado por elas: “Conhecê-las é inútil. Saber usá-las — por isso falamos que você pode decorar a Bíblia, mas de que adianta se não sabe aplicá-la?” (Com informações de Emily Brown – Relevantmagazine)
Comunhão
Postar um comentário