Líderes discutem como a igreja deve agir quando pastores aparecem em investigações ou notícias policiais
Por Cristiano Stefenoni
A prisão do pastor Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, ocorrida na última quarta-feira (4), em São Paulo, durante a terceira fase da Operação Compliance Zero, reacendeu um debate delicado dentro do meio cristão: como a igreja deve reagir quando um líder religioso se torna alvo de investigação ou aparece no noticiário policial? Casos como esse costumam extrapolar o âmbito jurídico e se transformam rapidamente em um problema espiritual, institucional e público para as comunidades de fé.
Escândalos envolvendo líderes religiosos têm impacto imediato sobre o testemunho público da igreja. Para o pastor Jorge Linhares, líder da Igreja Batista Getsêmani de Belo Horizonte e presidente do Conselho de Pastores, esse efeito negativo não atinge apenas uma denominação ou um ministério específico. “Isso é muito ruim. Afeta a igreja negativamente, mas não só ela. Qualquer grupo é atingido, seja o de advogados, de policiais, de médicos. Tudo que alguém de uma determinada função política, empresarial, comete um ato, atinge toda a classe”, afirma.
O pastor Riedson Filho, presidente da Ordem de Pastores Batistas do Brasil e líder da Igreja Batista Sião, reforça que esse tipo de episódio contradiz a essência da mensagem cristã. “A mensagem do cristianismo é de uma nova vida proporcionada pela transformação em Cristo Jesus. É claro que quando alguém se diz cristão e sua vida nega esta mensagem, de alguma forma isso afeta a maneira como os não cristãos enxergam o cristianismo. Então os escândalos e suspeitas trazem grande prejuízo à Igreja, que deveria ter sua vida como símbolo da transformação proporcionada por Jesus.”
Além da imagem pública, a presença de líderes religiosos em notícias policiais produz efeitos emocionais profundos dentro e fora da igreja. Segundo Riedson, a reação natural da comunidade cristã deve ser de tristeza. “Quando líderes religiosos aparecem em notícias policiais, isto deve causar uma grande tristeza em todos nós. Mas não uma surpresa, pois Jesus mesmo afirmou em Lucas 17:1: ‘é inevitável que venham os escândalos, mas ai daquele por quem vierem’. A queda de líderes serve de advertência para todos nós nos cuidarmos”, afirma o pastor, que completa:
“Também entristece, escandaliza e afasta muitas pessoas. Deixa feridas em vítimas que levarão muito tempo até ser tratadas. Então podemos dizer que é um desastre quando isso acontece.”
Já o pastor Paulo Cezar, do Grupo Logos, observa que o impacto desses episódios se torna ainda maior quando envolve líderes reconhecidos. “O impacto público, especialmente de líderes reconhecidos com envolvimento em escândalos, causa uma vergonha àqueles que verdadeiramente seguem a Cristo, mas uma descrença e até zombaria por parte dos incrédulos”, afirma.
Ele lembra ainda que a própria natureza humana explica parte dessas quedas. “A igreja de Cristo é formada por homens e mulheres pecadores que em algum momento ou outro pecam, pois são pecadores embora estejam buscando santificação e uma nova maneira de viver”, diz.
Para o pastor e psicólogo José Paulo Moura Antunes, líder da Primeira Igreja Batista de Madureira, no Rio de Janeiro, o peso social dessas situações é inevitável. “Quando se trata de líderes religiosos, o impacto social é, sem dúvida, muito mais negativo e prejudicial à imagem da instituição envolvida, pois geralmente espera-se destas pessoas conduta ilibada, vida piedosa e altruísta. É o justo preço do sacerdócio que precisa ser levado em conta por pessoas que ocupam funções tão especiais”, justifica.
Apesar disso, Antunes ressalta que a fé cristã não se sustenta em indivíduos. “A imagem do cristianismo jamais será abalada, a não ser por pessoas desprovidas de coerência, ética ou justiça. A Igreja não está apoiada em indivíduos, instituições ou projetos, mas em uma Pessoa: Jesus Cristo. Nada e ninguém conseguem deter ou destruir o que o Senhor fundou.”
Igreja deve ser prudente nessas horas, dizem líderes
Diante de denúncias ou investigações, os líderes ouvidos pela reportagem concordam que a primeira atitude da igreja deve ser prudência e busca pela verdade. Jorge Linhares defende que a comunidade cristã precisa evitar julgamentos precipitados. “Apurar a verdade, procurar saber e ouvir ambas as partes. Chamar o seu líder, ter uma conversa franca com ele e ver se procede aquilo que está sendo anunciado. Porque tem crentes também que só vivem nos fuxicos gospel da vida”, alerta.
Na mesma linha, o pastor José Ernesto Conti, articulista da revista Comunhão e líder da Igreja Presbiteriana Água Viva, em Vitória (ES), destaca que decisões apressadas podem gerar injustiças. “A igreja não pode tomar decisões apressadas quando há um escândalo. A prudência quanto à análise de cada caso é fundamental para não cometer uma injustiça”, enfatiza.
Ao mesmo tempo, Conti ressalta que falhas graves não podem ser toleradas. “Não podemos conviver ou aceitar no nosso meio pessoas que tenham cometido falhas ou erros, principalmente na área da moral e da ética”, opina.
Se errou, precisa responder à Justiça
Outro ponto amplamente defendido pelos líderes é a necessidade de transparência e responsabilidade diante da lei. Pastor Antunes afirma que qualquer cidadão deve responder por seus atos. “Pessoas, cristãs ou não, cometem falhas e, à luz da legislação, precisam ser devidamente denunciadas, investigadas, julgadas e condenadas, não importando se o caso é de repercussão pública ou não”, pontua.
Pastor Riedson acrescenta que a igreja precisa assumir uma postura clara nesses momentos. “A postura da igreja deve ser primeiramente de humildade. Precisamos reconhecer se erramos a ponto de viabilizar determinadas condutas ou se falhamos em orientação e disciplina. Deve ser também de total transparência. Não devemos esconder ou acobertar, precisamos jogar luz”, destaca. Ele também ressalta que, quando necessário, a justiça deve ser aplicada. “Pecado é pecado e eventuais crimes precisam ser investigados.”
Igrejas também devem agir na prevenção
Além da resposta aos escândalos, líderes cristãos defendem que o caminho mais eficaz está na prevenção. Para o pastor Antunes, muitas instituições falham por negligenciar o cuidado com seus próprios líderes. “Talvez seja esse o erro das nossas instituições. Não cuidamos preventivamente dos nossos líderes, nos omitimos ou agimos tarde demais. É preciso discipular, criar a cultura da prestação de contas, acompanhar e dar feedbacks, criar grupos de apoio e descentralizar o poder”, afirma.
A formação contínua e a advertência espiritual também são citadas como instrumentos de proteção. O pastor Jorge Linhares defende o investimento constante em líderes. “Sempre haver congressos, palavras de advertência, investir no líder, nos líderes, dar a ele condições para que participe. Também levar pessoas que têm uma vida íntegra para alertar a igreja”, sugere.
Já o pastor Paulo Cezar reforça que a igreja precisa preparar sua liderança de forma sólida. “A igreja deve ser firme em seu ensino e preparação de liderança. Isso será uma armadura para se vencer as tentações.” Ele também compara o papel da igreja ao de um hospital espiritual. “A igreja é, de certa forma, como um hospital onde se possa, não endossar o erro, mas mostrar aos outros que eles também são suscetíveis ao erro”, lembra.
É preciso jogar limpo com os membros
Quando o escândalo se torna público, outro desafio surge: preservar a fé dos membros. Para José Ernesto Conti, esconder problemas apenas piora a situação. “A igreja deve ser transparente. Erros e falhas são inerentes à vida. O pior cenário é quando escondemos o fato, camuflamos as consequências ou nos calamos quando as falhas acontecem”, adverte.
Pastor Riedson Filho concorda que a postura correta é agir com clareza e responsabilidade. “A Igreja não consegue controlar a ação das pessoas, mas agindo com seriedade poderá demonstrar que não faz parte do erro. Ela precisa ser a primeira a expor a situação, buscar medidas para que a justiça e as necessárias reparações sejam feitas e acolher os feridos nesses processos”, enfatiza.
Ao final, os líderes convergem em um ponto central: escândalos são dolorosos, mas também servem como alerta para a própria igreja. Jorge Linhares lembra que a Bíblia não esconde as falhas de seus personagens. “Deus não esconde o pecado de ninguém, nem de Moisés, nem de Davi, nem de Abraão. Serve de advertência para aqueles que não caíram. Por isso que a Bíblia diz: ‘Aquele que pensa que está em pé, vigie para que não caia’ (1 Coríntios 10:12)”, conclui.
Comunhão
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