Estupro: por que a violência sexual persiste no Brasil?

Estupro: por que a violência sexual persiste no Brasil?

 

Especialistas analisam por que crimes brutais continuam a acontecer e como preveni-los

Por Cristiano Stefenoni 

A Semana da Mulher deveria ser de celebrações e festa. Mas o que se vê ainda é uma realidade difícil de ser vencida. No Rio de Janeiro, um estupro coletivo recente expôs a face crua da violência sexual praticada em grupo. Dias antes, a morte brutal da freira Nadia Gavasnki, 82 anos, vítima de estupro seguido de assassinato, feriu não apenas uma comunidade religiosa, mas a própria noção de humanidade.

Dois crimes distintos, unidos pelo mesmo abismo. A pergunta que ecoa tão alto como a dor das vítimas e seus familiares é: por que isso ainda acontece no Brasil? E mais: de quem é a responsabilidade? Como interromper esse ciclo? Os números ajudam a dimensionar o cenário. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou 74.930 vítimas de estupro em 2022, o maior número da série histórica.

Isso significa uma média de 205 pessoas violentadas por dia. O mesmo levantamento aponta que 88,7% das vítimas são do sexo feminino e 61,4% têm até 13 anos. A violência sexual, portanto, tem endereço preferencial: meninas, muitas dentro da própria casa.

Já pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que mais de 60% das mulheres brasileiras têm medo de sofrer violência sexual. O medo tornou se rotina, um ruído constante na experiência de ser mulher no país.

Em um mundo hiperconectado, onde informação circula na velocidade de um clique, por que o crime persiste? Para a pastora Aline Santos, da Igreja Batista Atitude, na Barra da Tijuca, a resposta atravessa a dimensão espiritual. Para ela, a multiplicação da maldade não é surpresa, mas sinal de um coração que se distancia do cuidado com o outro.

Ela cita o Evangelho: “Em Mateus 24:12, a Bíblia diz que ‘por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará’, indicando que o aumento do pecado e da maldade no mundo levará as pessoas a perderem o afeto, a compaixão e o zelo por Deus e pelo próximo, resultando em frieza espiritual e afastamento”, diz Santos. 

O pastor Martinho Lutero de Oliveira, mestre em Novo Testamento e especialista em Missiologia Cristã Contemporânea, amplia a reflexão e ressalta que a tecnologia não redime a natureza humana. Pode informar, mas não transforma caráter.

“Acima de tudo, porque todos os males que existem, vêm do próprio coração. Jesus diz no Evangelho de Marcos 7:21,22: ‘Porque de dentro do coração dos homens é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a soberba, a loucura’. Para ser mau e fazer maldades, o ser humano só precisa seguir seu próprio coração”, afirma. 

A psicóloga e psicanalista Nadja Martins, que também é terapeuta de casal, família, adolescentes e adultos, concorda que a informação, por si só, não basta. Para ela esse tipo de crime não tem a ver com informação ou desinformação, já que não é tudo que se consegue educar ou informar o ser humano para que ele não faça algo contra a lei.

Ela alerta para mentes adoecidas e perversões que escapam à lógica pedagógica. “Quando o assunto é perverter a lei ou perverter o corpo de uma mulher, não há lei que vá funcionar numa cabeça, numa mente adoecida. Ali, a coisa já deu muito ruim. Para esse tipo de problema só tem cadeia, não tem tratamento”, ressalta.

De quem é a culpa?

E de quem é a culpa? A resposta não é simples. A pastora Aline Santos evita apontar um único alvo. “Não há culpado na minha opinião, existe um caminho que devemos trilhar desde a infância com nossos filhos, é árduo. Muitos pais criam filhos, mas não educam. Mas eu não me arriscaria colocar algo assim na conta da família. É triste demais. Hoje, pela manhã eu orava e chorava por esses pais, eu imagino a dor”, justifica.

Já o pastor Oliveira é direto: “A culpa é da própria pessoa”. Contudo, ele reconhece que há fatores agravantes. “O excesso de informações e notícias podem suscitar curiosidade para a prática de atos como este. A sociedade atual propaga e parece até exaltar a sensualização por diversas formas e meios. Este é um fator agravante. Mas a responsabilidade é pessoal”, pontua.

Para Nadja Martins, a palavra culpa precisa ser usada com cuidado visto que a sociedade e a família têm a capacidade de produzir sujeitos problemáticos. “Mas ela não pode ser responsabilizada sozinha por tudo. A mídia menos ainda. Agora leis e autoridades têm uma responsabilidade, na minha opinião, porque precisam endurecer para tentar coibir”, acredita.

Maioria dos estupros é cometida por pessoas conhecidas da vítima

Outro dado inquietante do Anuário de Segurança Pública revela que mais de 80% dos casos de estupro são cometidos por pessoas conhecidas da vítima. O inimigo, muitas vezes, não está na rua escura, mas na sala de casa. A violência sexual atravessa todas as classes, religiões e discursos morais.

Questionada sobre relatos de abusos em lares evangélicos, Aline Santos é enfática: “Não há lares livres de qualquer maldade. Precisamos orar por nossas famílias, mas a palavra já diz em 1 Coríntios 10:12: ‘Aquele, pois, que pensa estar em pé, veja que não caia’. Estamos todos suscetíveis”, afirma a pastora, que emenda:

“A Igreja precisa estar aberta para falar mais sobre esses casos, devemos apoiar e ensinar na palavra essas famílias. Não com ar de superioridade. Mas com base na palavra. Mas a família tem que querer. Os pais precisam caminhar com seus filhos e apresentar o evangelho desde crianças”, orienta.

Pastor Oliveira reforça: “Ser evangélico autêntico ou nominal não transforma uma pessoa em anjo. A suscetibilidade à violência sexual também assombra um lar considerado evangélico. Para evitar, é preciso consciência das fragilidades da natureza humana e vigilância constante”.

Igreja pode ajudar

Ele destaca ainda que, nessas horas, a igreja precisa ser zelosa no ensino e na aplicação das Escrituras Sagradas sobre os perigos do coração humano, e oração, além de criar espaços de diálogo aberto e amoroso sobre esta temática, falando de Deus trágicos resultados.

“E também oferecer aconselhamento Bíblico e terapias, através de profissionais competentes e aprovados que sejam membros da igreja, aos que se viram vítimas deste tipo de violência”, afirma.

A psicóloga Nadja Martins alerta contra explicações simplistas. “Não podemos pensar que um abusador comete o crime por falta de Deus ou de religião. Ter espiritualidade é bacana, mas não é fundamental para impedir perversões. A religião não dá conta sozinha de uma conversão total às perversões sexuais”, acredita.

Para ela, o enfrentamento precisa ser coletivo. “Uma forma de a igreja ajudar é andar de mãos dadas com a lei, com o judiciário, com o apoio e proteção da infância. Existem políticas públicas que podem ser fortalecidas pela força das próprias igrejas”, diz.

Contudo, prevenir estupros no Brasil exige mais que indignação momentânea. Exige políticas públicas robustas, educação sexual responsável, fortalecimento da rede de proteção a crianças e mulheres, investigação eficiente e punição célere. Exige também quebrar o silêncio que protege agressores.

Comunhão

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