Por que perdemos a paz tão facilmente?

Por que perdemos a paz tão facilmente?

 No Dia Internacional da Paz, cristãos são chamados a olhar além das guerras e cultivar reconciliação, equilíbrio e confiança em Deus


Na próxima segunda-feira (21), o mundo volta os olhos para um dos desejos mais antigos da humanidade: a paz. Instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1981 e transformado, em 2001, em uma data anual de não violência e cessar-fogo, o Dia Internacional da Paz chega em 2026 com um chamado que vai além dos acordos entre países: “Investir na paz, para todos, em todas as partes, todos os dias”. A própria ONU destaca que paz não significa apenas ausência de guerra, mas também segurança, dignidade, cooperação e convivência.

Os números ajudam a dimensionar o tamanho do desafio. O Global Peace Index 2026 aponta que a paz mundial se deteriorou pelo 12º ano consecutivo e registra mais de 181 mil mortes relacionadas a conflitos no período mais recente analisado. O relatório também aponta que o número de conflitos estatais ativos alcançou o maior patamar desde a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, o Atlas da Violência 2025 contabilizou 45.747 homicídios em 2023, uma média de 125 mortes por dia. Apesar de ser a menor taxa registrada em 11 anos, o número revela que a violência continua distante de ser um problema resolvido.

A paz na vida do cristão

Para o cristão, porém, a paz não pode ser reduzida a uma estatística sobre guerras, criminalidade ou relações internacionais. Ela também diz respeito à maneira como uma pessoa lida consigo mesma, com Deus e com quem está ao seu redor. “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus”, ensinou Jesus no Sermão do Monte (Mateus 5:9). A Bíblia apresenta a paz como fruto de uma vida reconciliada com Deus e como responsabilidade diante do próximo.

É nesse ponto que o pastor Israel Belo de Azevedo, da Igreja Batista Itacuruçá, na Tijuca (RJ), chama atenção para uma mudança que começa no indivíduo. Pós-graduado em História e em Teologia e doutor em Filosofia, ele entende que a busca pela paz exige uma decisão consciente de abandonar a disposição permanente para o conflito. “Penso que a primeira coisa é de fato desejá-la, desejar a paz combatendo a nossa própria natureza bélica de querer viver em guerra”, afirma.

O pastor também questiona a maneira como a linguagem cotidiana pode transformar o conflito em virtude. Para ele, até expressões usadas dentro da família precisam ser repensadas. “A segunda coisa é mudar a nossa linguagem de chamar pessoas de nossa família de guerreiras. Temos que terminar com essa linguagem que favorece a guerra”, argumenta.

A observação ganha relevância quando se considera a própria linguagem bíblica sobre conflito. Israel Belo lembra que Jesus declarou: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada” (Mateus 10:34). Para ele, a passagem não autoriza a violência. “Essa palavra é uma metáfora, quando lemos antes e depois dessa frase entendemos claramente que Jesus está falando da espada enquanto decisão”, explica. O contexto, segundo o pastor, trata das divisões que poderiam surgir dentro das próprias famílias diante da decisão de seguir Cristo.

A paz bíblica, portanto, não significa ausência absoluta de divergências. Romanos 12:18 orienta: “Se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos”. A recomendação reconhece que nem todo conflito está sob o controle de uma única pessoa, mas estabelece uma responsabilidade: fazer a própria parte na construção da paz. No casamento, na criação dos filhos, na igreja, no trabalho e nas relações sociais, isso envolve controlar palavras, buscar reconciliação e não transformar toda discordância em batalha.

A tão desejada “paz interior”

Há também uma dimensão interior. Em Filipenses 4:6-7, Paulo relaciona oração, gratidão e ansiedade à “paz de Deus, que excede todo o entendimento”. A passagem não promete uma vida sem problemas, mas aponta para uma maneira diferente de enfrentá-los. Para quem vive submetido à pressão permanente, a paz deixa de ser apenas uma circunstância externa e passa a envolver confiança em Deus.

O teólogo Lourenço Stelio Rega relaciona essa tranquilidade a outra questão: propósito. Para ele, uma vida sem prioridades claras pode se transformar em uma sucessão de urgências, deixando pouco espaço para aquilo que realmente importa. “É necessário ter claro o propósito da vida, que nos conduz ao estabelecimento de prioridades. Isso nos leva a dizer ‘não’ ao que não é essencial e manter o alinhamento com os ideais da Palavra de Deus”, orienta.

Rega entende que a vida cristã deve organizar as escolhas, e não ocupar apenas um espaço entre tantas outras prioridades. “Nosso projeto de vida, após a conversão, deve estar focalizado na missão de Deus em resgatar toda a criação e criatura. Vivemos a história de Deus por meio das nossas escolhas e ações”, afirma. Nesse sentido, buscar paz também pode significar aprender a dizer não ao excesso, à competição permanente e àquilo que rouba tempo e atenção do que é essencial.

O pastor presbiteriano José Ernesto Conti, do ministério Água Viva, no Espírito Santo, identifica justamente na pressa um dos obstáculos contemporâneos à tranquilidade. “Esse é um tremendo desafio, semelhante aos 10 trabalhos de Hércules! O problema não são os desafios em si, mas a necessidade de realizá-los no menor tempo possível”, afirma.

A consequência, segundo Conti, é uma sociedade permanentemente acelerada. “Estamos todos adoecendo sem perceber, contaminados pela doença da pressa.” Para o cristão, ele aponta uma certeza que pode reorganizar essa rotina: “Apesar de tudo, Deus está no controle. Essa certeza alivia o estresse dessa correria, muitas vezes insana”.

A Bíblia oferece, assim, uma espécie de mapa para diferentes dimensões da paz. O Salmo 4:8 associa segurança e descanso à confiança em Deus. Isaías 26:3 fala da mente firme que permanece em paz porque confia no Senhor. Colossenses 3:15 orienta que a paz de Cristo governe o coração. E Hebreus 12:14 resume uma tarefa que ultrapassa o indivíduo: “Segui a paz com todos”.

No Dia Internacional da Paz, a mensagem pode começar longe dos campos de batalha, mas não precisa terminar neles. Pode começar na forma como uma família conversa à mesa, na maneira como um casal enfrenta uma divergência, na decisão de não responder à agressão com outra agressão, na disciplina de silenciar diante de uma provocação e na capacidade de reconhecer quando é necessário pedir perdão. Para a fé cristã, paz não é simplesmente um lugar onde não existe conflito. É também uma escolha diária de reconciliação, domínio próprio, confiança e serviço.

Práticas de paz à luz da Bíblia

Ore antes de reagir
Filipenses 4:6-7 relaciona oração e gratidão à paz de Deus. Antes de responder em meio à tensão, transforme a preocupação em oração.

Não devolva o mal na mesma moeda
Romanos 12:17-18 orienta a não retribuir mal por mal e, “quanto depender de vós”, viver em paz com todos.

Cuide das palavras dentro de casa
Provérbios 15:1 ensina que “a resposta branda desvia o furor”. O princípio vale especialmente para os conflitos familiares.

Aprenda a perdoar
Colossenses 3:13 orienta os cristãos a suportarem uns aos outros e perdoarem as queixas, “assim como o Senhor lhes perdoou”.

Não transforme toda divergência em guerra
Mateus 5:9 chama de bem-aventurados os pacificadores. Discordar não precisa significar romper relações.

Combata a ansiedade com confiança
Isaías 26:3 relaciona a paz à mente que permanece firme e confia em Deus.

Estabeleça limites para a pressa
Eclesiastes 3:1 lembra que há “tempo para todo propósito debaixo do céu”. Nem toda urgência merece governar a agenda.

Procure reconciliação
Mateus 5:23-24 apresenta a reconciliação como algo que não deve ser indefinidamente adiado.

Leve a paz para além de casa
Hebreus 12:14 orienta: “Segui a paz com todos”. A vocação cristã para a paz alcança família, igreja, trabalho e sociedade.


Comunhão

Post a Comment

Postagem Anterior Próxima Postagem