Bets e os estragos que elas causam na vida do cristão

Bets e os estragos que elas causam na vida do cristão

 

 
A MP será enviada ao Congresso Nacional e para se tornar lei definitivamente precisa ser votada em até 120 dias na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

 

O pastor e psicólogo Daniel Guanaes, da Igreja Presbiteriana do Recreio, na zona oeste do Rio de Janeiro, alerta que o vício em apostas online já é uma realidade crescente, mas ainda pouco visível dentro das igrejas. “Não tenho a ilusão de que os evangélicos estejam imunes. O problema já está presente, mas, por sua natureza disfarçada, ainda não aparece com clareza”, opina.

Para o pastor, diferentemente de jogos de azar como bingos e cassinos — que operavam de forma clandestina e envolviam grandes quantias em dinheiro —, as apostas esportivas digitais possuem uma aparência mais inofensiva, o que dificulta o reconhecimento do vício. “Hoje a pessoa joga pelo celular, influenciada por campanhas e figuras populares. Parece algo trivial, como um passatempo qualquer, e isso mascara os riscos reais”, observa.

Daniel Guanaes critica abordagens exclusivamente moralistas dentro das igrejas – Foto: Arquivo Next

Guanaes destaca que muitos só percebem a gravidade da situação quando o impacto já atinge áreas sensíveis da vida, como finanças e relacionamentos. “O vício compromete casamentos, destrói famílias e pode levar a situações perigosas, como dívidas com agiotas e ameaças à integridade pessoal.”

Ele critica abordagens exclusivamente moralistas dentro das igrejas e defende que o combate ao vício em apostas deve passar por estratégias de conscientização e informação. “Dizer apenas que é pecado não é suficiente. A igreja precisa atuar como um espaço de orientação, esclarecendo como esse comportamento leva à dependência e gera consequências profundas.”

Guanaes propõe que as comunidades de fé promovam encontros, palestras e discussões abertas para informar a comunidade sobre os riscos das apostas, criando um ambiente de apoio e prevenção. “Se a igreja assumir esse papel educativo, pode ser uma ferramenta poderosa na luta contra essa nova forma de vício que está se infiltrando silenciosamente na sociedade”, conclui.

Bênção divina?

O pastor e teólogo Kenner Terra sublinha a banalização de conceitos teológicos durante a CPI das Apostas Esportivas, em 2025, em especial após declarações da influenciadora Virgínia Fonseca, que chegou a associar seu sucesso à “justiça de Deus”, afirmando que sua prosperidade seria fruto de bênção divina.

No entanto, segundo o pastor Kenner, tal uso do termo desconsidera o impacto social de práticas que geram prejuízo a milhares de famílias. “Entre os principais alvos das apostas estão os brasileiros com renda de até dois salários mínimos — mais de 52% do total de apostadores”, adverte.

Do ponto de vista bíblico, o pastor cita Salmos 82.3,4 para redefinir o verdadeiro sentido da justiça de Deus: “Defendam os fracos e os órfãos; façam justiça aos pobres e oprimidos. Livrem os necessitados das mãos dos ímpios.”

Kenner Terra lembra que o vício em apostas, assim como outras formas de dependência, é uma doença- Foto: Divulgação

Para o teólogo, não há como dissociar os ganhos de influenciadores da dor alheia. “Jogos de azar, como o jogo do bicho ou as apostas online, são mecanismos que alimentam vícios e destroem vidas. Promover esse tipo de prática é lucrar com a desgraça do próximo”, avalia.

Kenner rebate o argumento comum de que “joga quem quer” ao lembrar que o vício em apostas, assim como outras formas de dependência, é uma doença. “A questão não é apenas liberdade de escolha, mas o tipo de sociedade que estamos construindo. Quando aceitamos lucrar com a fragilidade dos outros, estamos coletivizando a insensibilidade. Paulo chamaria isso de carnalidade.”

No entendimento de Kenner, o papel da fé cristã é proteger os mais vulneráveis — não justificar sistemas que os exploram. “A justiça divina não compactua com a exploração dos pobres. É preciso discernir entre bênção e privilégio construído à custa do sofrimento alheio.”

Crise social

O pastor e teólogo Leonardo Félix, criador do canal Fé Equilibrada no YouTube, fez um pronunciamento contundente sobre o avanço das casas de apostas no Brasil. Ele classificou o fenômeno como um “vício institucionalizado” que estaria promovendo manipulação e danos sociais, especialmente entre os mais vulneráveis.

“As bets se tornaram as maiores patrocinadoras do esporte e da internet. Estão em todos os lugares — clubes, transmissões esportivas, redes sociais — por meio de influenciadores digitais”, ponderou o pastor. Ele também criticou a atuação desses influenciadores, como no caso de Virgínia Fonseca, ouvida na CPI das Apostas Esportivas, a quem acusou de tratar o tema com superficialidade.

Com base em ensinamentos bíblicos, Leonardo relaciona o vício em apostas à busca desenfreada por dinheiro fácil, algo que, segundo ele, conduz à pobreza e à escravidão emocional. “A Bíblia é clara: o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. As apostas prometem liberdade, mas aprisionam.”

Para o pastor Leonardo Félix, a participação de cristãos nesse universo não se sustenta do ponto de vista espiritual – Foto: Reprodução/Instagram

De acordo com o pastor, a participação de cristãos nesse universo não se sustenta do ponto de vista espiritual. “Não há base bíblica que justifique. Participar disso é pecado. É preciso se afastar completamente, deletar contas, buscar caminhos mais saudáveis para investir tempo e dinheiro.”

Félix chama atenção para a prática de empresas de apostas fornecerem logins específicos a influenciadores para simular ganhos em campanhas publicitárias. Segundo ele, isso pode induzir o público a acreditar que é fácil lucrar, quando na realidade a maioria perde. “É uma armadilha que engana, sobretudo, pessoas em situação de vulnerabilidade, como beneficiários do Bolsa Família.”

Ele também relata a força do lobby das casas de apostas na política e na mídia como um dos fatores que impedem um debate mais profundo e efetivo. “Hoje, emissoras e clubes estão amplamente financiados por essas empresas. O nome do campeonato, as placas de publicidade, os uniformes — tudo carrega o selo das bets.”

Por fim, Leonardo Félix faz um apelo para que seus seguidores e a sociedade em geral se posicionem contra o que chama de “sistema diabólico”. “Essa não é apenas uma questão religiosa. É uma crise social. Famílias estão sendo destruídas. Precisamos alertar, aconselhar e agir.”


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