Banco do Brasil alertou Coaf sobre possível ocultação de recursos da Lagoinha

Banco do Brasil alertou Coaf sobre possível ocultação de recursos da Lagoinha

 Banco apontou movimentação incompatível com faturamento da igreja e operações que poderiam dificultar identificação da origem e dos destinatários dos recursos


Cleber Lourenço e Juliana Dal Piva

O Banco do Brasil alertou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre movimentações na conta da Igreja Batista da Lagoinha Belvedere que poderiam dificultar a identificação da origem e do destino do dinheiro. A instituição financeira enquadrou as operações em três situações consideradas atípicas pelo Banco Central, entre elas a possibilidade de uso de artifícios para impedir a identificação de quem enviou, recebeu ou era o destinatário final dos recursos.

O alerta faz parte do mesmo Relatório de Inteligência Financeira (RIF) do Coaf que relaciona 823 pessoas e empresas e está no centro de um pedido da Polícia Federal que aguarda há mais de seis meses uma decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Como o ICL Notícias revelou, o Coaf reteve parte das comunicações do relatório porque identificou nelas possível presença de pessoas com foro no STF ou no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Em 10 de março, a PF pediu a Mendonça acesso integral ao material omitido, afirmando que a ausência dos dados deixava uma “lacuna” no rastreamento do dinheiro e impedia a reconstrução de toda a cadeia de repasses e a eventual identificação dos beneficiários finais.

A conta analisada movimentou R$ 57,1 milhões entre 24 de dezembro de 2024 e 8 de dezembro de 2025, embora o cadastro bancário apontasse faturamento anual presumido de R$ 950 mil para a igreja. Foram R$ 28,49 milhões em entradas e R$ 28,62 milhões em saídas.

A diferença entre o faturamento informado e o volume movimentado foi um dos motivos do alerta. O Banco do Brasil enquadrou o caso como movimentação incompatível com o patrimônio, a atividade econômica ou a capacidade financeira do cliente e, especificamente, como movimentação incompatível com o faturamento de uma pessoa jurídica.

O terceiro enquadramento é o mais sensível. O banco apontou a hipótese prevista nas normas do Banco Central para operações que, pela frequência, valor e forma, possam configurar “artifício para burla da identificação da origem, do destino, dos responsáveis ou dos destinatários finais”.

Zettel enviou R$ 19,2 milhões

Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, aparece dos dois lados da relação com a igreja. Além de constar como procurador e representante legal da Lagoinha Belvedere, foi o maior remetente identificado pelo banco no período analisado.

Zettel realizou 26 transferências que somaram R$ 19,205 milhões. O valor corresponde a cerca de dois terços dos R$ 28,49 milhões que entraram na conta durante o período analisado.

Outros nomes e empresas também aparecem entre os principais remetentes. A Lagoinha Participações transferiu R$ 1,1 milhão; a HV Empreendimentos e Participações, R$ 700 mil; e Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, fez quatro transferências que somaram R$ 120 mil.

Ao justificar a comunicação ao Coaf, o Banco do Brasil destacou especificamente Zettel. Segundo o registro, a igreja recebeu recursos principalmente do procurador, além de milhares de Pix de valores menores enviados por terceiros, que poderiam corresponder a doações de fiéis.

Na sequência, o banco registrou que os recursos eram repassados principalmente para empresas relacionadas à construção civil e que também havia grande volume de pagamentos de títulos. E explicou por que decidiu fazer a comunicação: “Considerando relação financeira íntima do outorgado mencionado em possíveis ilicitudes, optamos pela comunicação.”

Conta recebeu mais de 8 mil Pix

A análise do Banco do Brasil mostra que a conta recebeu 8.039 Pix, no total de R$ 23,98 milhões, além de R$ 4,37 milhões em operações com CDB e RDB. Do outro lado, foram feitos 709 Pix, que movimentaram R$ 14,46 milhões, e 1.277 pagamentos de títulos, no total de R$ 8,27 milhões.

Entre os principais destinatários identificados aparecem empresas de construção, engenharia, estruturas metálicas, instalações e serviços ligados a obras. A Jorlan Incorporadora e Construtora recebeu R$ 2,56 milhões; a Muzzi Misk Construtora e Engenharia, R$ 2,30 milhões; a AFEB Estruturas Metálicas, pouco mais de R$ 1 milhão; e a FDS Construções, R$ 780 mil.

O relatório não afirma que essas empresas tenham cometido irregularidades. Elas aparecem como destinatárias de recursos da conta analisada pelo Banco do Brasil.

Também não há, no documento, conclusão de que a Lagoinha, Zettel ou qualquer outro relacionado tenha praticado lavagem de dinheiro. O próprio Coaf ressalta que relatórios de inteligência financeira não constituem prova por si mesmos e que as operações comunicadas por bancos e demais instituições obrigadas não são necessariamente ilícitas.

O que o documento registra é que o Banco do Brasil identificou elementos suficientes para comunicar a movimentação ao Coaf sob três hipóteses de operações atípicas — inclusive aquela relacionada à possibilidade de dificultar a identificação da origem e do destino dos recursos.

Procurada, a Igreja Batista da Lagoinha não havia respondido até a publicação. O espaço permanece aberto.


da redação FM

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