Oi, você já foi agredida por um companheiro?

Oi, você já foi agredida por um companheiro?

           Sim. Essa resposta é cada dia mais comum. Nesse "Agosto Lilás", decidi falar



Sim. Essa resposta é cada dia mais comum. Uma conhecida, amiga, alguém da minha família. Em um exercício de memória, é mais fácil lembrar das mulheres que conheço e nunca relataram nada do que o contrário. Infelizmente, isso nem significa que não tenham sofrido algum tipo de violência. Quem nunca verbalizou pode só não ter entendido ou guardou para si. É um direito também. Mas nesse  “Agosto Lilás”, da campanha de violência contra à mulher, decidi  falar.

Há alguns anos, eu ouvia histórias de mulheres agredidas por seus maridos ou namorados quando ia procurar “personagens” para reportagens sobre o tema. Geralmente, ligava para especialistas, advogadas, entidades que atuam na área.

Infelizmente, hoje eu convivo com dezenas de vítimas de diferentes situações. Elas não me dão entrevista. Elas dançam comigo, fazem a unha do meu lado no salão ou frequentam a mesma academia.

Acho que tudo estava ali. Antes, a gente só não enxergava. Não queria entender. Compreender que o quê aconteceu reflete um tempo em que passamos a nomear as violências. Ter essa dimensão é essencial, mas, ainda assim, é assustador. A possibilidade de ser agredida parece mais aqui, mais perto.

Há alguns dias, uma amiga desabafou sobre o ex-namorado que mandava mensagens xingando ela porque não aceitava o fim do namoro. Preocupada, insisti que ela bloqueasse ele de todas as redes e no celular. Cheguei a dizer: “amiga, esse é o primeiro passo para algo que pode ficar mais sério. Registra tudo, podemos ir na polícia”. Não demorou nem uma semana. Ele criou perfis falsos para mandar mensagens agressivas. Ignorado, ainda brotou na frente do prédio dela e quis convencer o porteiro a deixá-lo subir. Ao falar, ela não conseguia entender que ela já estava sendo alvo de violência psicológica há dias.

No carnaval desse ano, eu comecei a subir uma das ladeiras de Olinda, em Pernambuco, quando vi um casal discutindo e o homem pegou e apertou um dos braços da companheira e a puxou enquanto discutia com ela. Vi a cena e interferi. Sem pensar direito, olhei para o homem, que eu não conhecia, e falei para ele soltar o braço dela e parar. Ele me olhou parecendo um pouco constrangido e largou. Perguntei para a mulher se ela estava bem, no que ela me assentiu afirmativamente com a cabeça. Quando eu vivi essa cena, muitos e muitos anos antes, não tinha mais ninguém ali. Sozinha, enfrentei com um “não tenho medo”. Só que eu tinha. Felizmente nada mais aconteceu. Mas tantas outras mulheres possuem histórias com finais diferentes e trágicos.

Outra das minhas mulheres foi drogada e estuprada por alguém que, até o momento em que o crime aconteceu, era um amigo próximo. Alguém em quem, ela e seus pais, confiavam para acompanhá-la até em casa depois de uma festa. Tudo aconteceu quando ela só tinha 19 anos.

Quando essas coisas acontecem, surge algo estranho dentro de você. É azedo. Engasga. Algo difícil de descrever. Você quer esquecer ou apagar. O ímpeto inicial é não deixar que outro alguém saiba. Dá vergonha. Ensinaram ao nosso redor, durante uma vida toda, que a culpa é sua, a difícil, ou a quem tem dedo podre. Não soube escolher o namorado ou andou em más companhias. Eles nada. Nem o reconhecimento de que erraram. Desculpas? Não espere. Em muitos casos, o melhor, até por segurança, é torcer para que guardem distância.

Quando falamos em criar meninos de outra forma, falamos em não ter uma nova geração de homens que tratam as mulheres como coisas submetidas a suas vontades. Essa é uma responsabilidade das famílias, dos vizinhos, das escolas, do mundo ao nosso redor. É também discussão de política pública. As meninas devem se tornar mulheres conscientes de si, atentas ao respeito de seus limites, e sem medo.

Não queremos mais mulheres marcadas. Porque quando você entende que não é culpa sua, aquele azedo fica. Quando uma mulher é agredida, da forma que for, por alguém que um dia ela amou, sobra uma marca. É um alerta, mas também uma cicatriz.

Juliana Dal Piva
Juliana Dal Piva

Formada pela UFSC com mestrado no CPDOC da FGV-Rio. Foi repórter especial do jornal O Globo e colunista do portal UOL. É apresentadora do podcast "A vida secreta do Jair" e autora do livro "O negócio do Jair: a história proibida do clã Bolsonaro", da editora Zahar, finalista do prêmio Jabuti de 2023.


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da redação FM

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