Pesquisa revela paradoxo cultural: embora 90% dos brasileiros prefiram o diálogo como método educativo, a maioria admite utilizar agressões físicas e verbais.
© Rovena Rosa/Agência Brasil
A educação de crianças e adolescentes no Brasil ainda é marcada por um cenário contraditório. Dados da segunda edição da pesquisa “Atitudes e percepções sobre a infância e violência”, realizada pela Quaest a pedido do Instituto Infinis, apontam que, apesar de a ampla maioria da população (90%) defender o diálogo como a ferramenta ideal para orientar comportamentos infantis, a prática cotidiana revela uma realidade distinta e agressiva.
O paradoxo da educação
O levantamento, que ouviu 2.202 brasileiros entre maio e junho de 2026, indica que 62% dos entrevistados afirmam já ter gritado com uma criança, enquanto 49% admitem ter dado tapas e 27% confirmam o uso de objetos para aplicar punições físicas. Especialistas apontam que essa discrepância entre o que se acredita ser correto e o que é efetivamente praticado reflete um ciclo intergeracional de violência, onde padrões agressivos são frequentemente replicados de pais para filhos.
Impacto e omissão
O cenário é corroborado por dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, que registrou 115.814 denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes apenas nos primeiros quatro meses de 2026. Quando questionados sobre como agem ao presenciar atos de violência, 62% dos entrevistados afirmaram que não interferem. Entre os motivos, metade alega que a educação de um menor seria um assunto de foro privado, enquanto outros admitem receio de represálias por parte dos agressores.
Trabalho infantil e conhecimento legal
O estudo também trouxe reflexões sobre o trabalho precoce. Embora 93% reconheçam a prioridade dos estudos, 61% dos participantes consideram aceitável que crianças trabalhem, um índice que sobe para 88% quando o foco recai sobre os adolescentes. Além disso, a pesquisa evidenciou um desconhecimento significativo sobre os direitos fundamentais: 71% dos brasileiros não souberam citar leis de proteção à infância, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Mudança de mentalidade
Apesar da permanência de comportamentos agressivos, os pesquisadores observaram uma leve redução no uso de objetos para castigos físicos em comparação com a edição de 2023 da pesquisa. Segundo Márcia Kalvon, diretora executiva do Instituto Infinis, o desafio é romper o ciclo de violência por meio de políticas públicas eficazes. O estudo completo será divulgado em setembro durante o 8º Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância (FPPSI).
Perguntas frequentes
Qual o principal paradoxo identificado pela pesquisa?
Nove em cada dez brasileiros defendem o diálogo como melhor forma de educação, mas admitem usar gritos, tapas ou objetos para disciplinar crianças.
Quantas denúncias de violência infantil foram feitas em 2026?
O Ministério dos Direitos Humanos registrou 115.814 denúncias nos primeiros quatro meses do ano.
Por que a maioria não interfere ao presenciar agressões?
Metade não intervém por achar que se trata de uma questão privada e outros relatam medo da reação do agressor.
O que a pesquisa diz sobre o trabalho infantil?
Embora a prioridade pelos estudos seja amplamente reconhecida, 61% dos entrevistados consideram aceitável que crianças trabalhem.
Com informações de Guilherme Jeronymo – Repórter da Agência Brasil
Fonte: Francisco Rodrigo
da redação FM
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