Tarifaço, PCC e terras raras: saiba por que EUA viraram munição na disputa entre Lula e Flávio

Tarifaço, PCC e terras raras: saiba por que EUA viraram munição na disputa entre Lula e Flávio

 

Receio do Executivo cresce à medida que os Estados Unidos fazem movimentos para afetar o Brasil


Tensão entre Brasil e EUA vem crescendo nos últimos mesesWhite House/Daniel Torok

A menos de quatro meses para as eleições, a tensão entre os Estados Unidos e o Brasil virou um dos focos da disputa política entre o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o pré-candidato e senador Flávio Bolsonaro. Nos últimos meses, movimentos e decisões feitas pelo governo de Donald Trump acenderam um alerta para uma possível interferência no processo eleitoral brasileiro.

O receio do Executivo cresce à medida que os Estados Unidos fazem gestos de apoio a outros candidatos de direita de países da América Latina que também passaram por eleições. É o caso, por exemplo, de Abelardo de la Espriella, presidente direitista eleito na Colômbia, que recebeu apoio público de Trump.

As suspeitas se aprofundaram quando os americanos decidiram classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas e ameaçar a imposição de uma tarifa de 25% sobre a importação de produtos brasileiros por supostas práticas desleais do Brasil.

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Especialistas ouvidos pelo R7 acreditam que o governo Trump tem mostrado empenho para usar instrumentos de política sobre governos divergentes, como o caso do Brasil. Assim, para eles, não está descartada a ideia de que os Estados Unidos estejam unindo esforços para influenciar o ambiente político brasileiro.

Cientista político e doutorando em relações internacionais pela UnB (Universidade de Brasília), José Paulo Ferreira entende que o interesse de Washington é limitar a presença de outros atores no hemisfério, objetivo que constitui praticamente um consenso bipartidário.

“Existe, claro, a dimensão econômica-comercial, mas a que avalio que tem maior peso é a geopolítica, no sentido de alinhamento à nova doutrina de defesa, com projeção sobre as Américas e afastamento da influência chinesa“, aponta.

Com esse plano, um governo brasileiro mais alinhado à agenda trumpista facilitaria acordos comerciais, cooperação em segurança e redução da influência de potências rivais, como a China, na região. “O Brasil é a maior economia da América do Sul e tem peso geopolítico que os EUA não ignoram”, explica Rafael Moredo, internacionalista e coordenador de políticas públicas do Livres.

Métodos de Trump

Os especialistas entendem que Trump usa a pressão política e a comunicação para realizar intervenções políticas em determinados países. No caso do Brasil, Ferreira cita a cobrança pelo combate ao narcotráfico e as negociações sobre minerais raros.

“De um lado, para estimular medidas mais duras de combate ao narcotráfico; de outro, para fortalecer a posição americana em futuras negociações envolvendo minerais críticos e terras raras, incentivando o Brasil a aceitar termos mais favoráveis aos americanos e limitar a expansão da influência chinesa na região”, diz o cientista político.

Com a classificação do PCC e CV como terroristas, o governo brasileiro reforçou sua preocupação com a decisão, alegando consequências econômicas e ameaças à soberania. Para Ferreira, a medida não influencia no processo eleitoral brasileiro, mas amplia a “margem para ações extraterritoriais sob a justificativa de proteger cidadãos americanos, sem necessidade de autorização prévia do Capitólio”.

O especialista acredita que a principal influência são as big techs, principalmente devido à proximidade de Trump com os donos das grandes empresas de tecnologia. “Há de se reconhecer a enorme capacidade dessas plataformas de influenciar o debate público, por meio de seus algoritmos, e, consequentemente, as eleições”, ressalta.

Moredo também cita o uso das redes sociais como um dos métodos para potencializar narrativas. Segundo o especialista, o governo americano ainda pode recorrer a outras estratégias para influenciar as eleições brasileiras, como declarações de membros do governo americano sobre candidatos ou partidos, o apoio financeiro ou logístico a grupos alinhados a seus interesses e a pressão econômica capaz de afetar a percepção do eleitorado sobre o desempenho do governo atual.

“Há também o uso de classificações e sanções como instrumentos de sinalização política, como já vimos com o PCC e o CV. Esses mecanismos existem e são reais, mas operam no campo da influência — não da manipulação direta do processo eleitoral em si”, completa o especialista.

Impactos nas eleições

Para o diplomata Paulo Roberto, o impacto de uma possível interferência americana nas eleições será ineficaz. Entretanto, ele acredita que seria positivo para o atual governo. “Lula, aliás, gostaria que Trump tentasse interferir nas eleições brasileiras, pois seria inteiramente a seu favor”, comenta.

Apesar das medidas tomadas para “punir” o Brasil, os analistas entendem que os impactos das ações do governo americano devem ser limitados.

Segundo Moredo, a principal garantia é o sistema eleitoral brasileiro. Entretanto, mesmo não acreditando em desdobramentos mais sérios, o especialista aponta para a tentativa de influenciar o ambiente político.

“As urnas eletrônicas não estão conectadas à internet durante a votação, o processo é auditável e haverá observadores internacionais. O que pode acontecer — e já está acontecendo em certa medida — é uma tentativa de influenciar o ambiente político: declarações de membros do governo americano, pressão sobre candidatos, amplificação de narrativas nas redes sociais", salienta.

Ainda assim, ele acredita que as consequências serão limitadas. “O brasileiro tende a reagir mal à percepção de interferência externa, o que pode até produzir efeito contrário ao desejado”, conclui.

Tarifaço como arma eleitoral

Em meio à tentativa do Brasil de reverter a ameaça de taxação dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro pediu ao governo americano a suspensão, por 180 dias, das tarifas, prevista para entrar em vigor no dia 15 de julho.

Segundo o pré-candidato à Presidência, a manutenção das taxas é ineficaz e fortalece politicamente Lula em ano eleitoral.

“Em outras palavras, as tarifas propostas recompensariam o atual governo brasileiro pela própria estratégia que ele tem seguido: protelar negociações sérias, provocar Washington para uma retaliação e, então, converter essa retaliação em uma vitória política interna”, afirmou o senador no texto.

Ele ainda destaca que a pressão econômica americana tem sido utilizada como arma eleitoral doméstica no Brasil, prejudicando a própria oposição e os interesses econômicos dos Estados Unidos.


R7


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