Os rebeldes houthis do Iêmen atacaram dois petroleiros sauditas na madrugada desta quinta-feira (23) no Mar Vermelho, utilizando drones e mísseis. A ação marca a primeira investida militar desde que o grupo anunciou, na última segunda-feira (21), um bloqueio marítimo a embarcações ligadas à Arábia Saudita que transitam pelo Mar Vermelho e pelo Estreito de Bab el-Mandeb — passagem estratégica que conecta o Mar Vermelho ao Oceano Índico, com apenas 29 km de largura.
O ataque atingiu os petroleiros Encelia e Layla, provocando incêndios a bordo. Os houthis afirmaram que as embarcações descumpriram o bloqueio imposto pelo grupo.
Escalada na Tensão Regional
A ofensiva representa a escalada mais grave entre os houthis e a Arábia Saudita desde o início do processo de aproximação entre as partes, em 2022, mediado pela ONU. As tensões já vinham aumentando nos últimos dias: os houthis acusaram Riad de endurecer restrições nas áreas sob seu controle e responsabilizaram o reino por ataques aéreos que danificaram as pistas do aeroporto de Sana na semana passada.
Rota Alternativa Ameaçada
A escolha do Mar Vermelho como palco do ataque não é aleatória. Com o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã — em retaliação aos ataques americanos —, a Arábia Saudita redirecionou mais de 70% de suas exportações de petróleo para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, de onde passaram a ser embarcados mais de 4 milhões de barris diários nas últimas semanas. O bloqueio houthi ameaça diretamente essa rota alternativa. Em junho, o Estreito de Bab el-Mandeb foi responsável pelo trânsito de 7% da produção mundial de petróleo.
Impacto nos Preços e Contexto Político
Os preços do petróleo já refletem a escalada: o barril do Brent subiu para US$ 90,85, e o WTI se aproximou de US$ 84.
O ataque ocorreu no mesmo dia em que os EUA e a Arábia Saudita firmaram um acordo de cooperação nuclear civil de 30 anos, que abre caminho para o enriquecimento de urânio em território saudita. O pacto ainda precisa ser ratificado pelo Congresso americano e enfrenta resistência de legisladores e do governo de Israel.
Reações e Riscos
O presidente Donald Trump havia advertido na terça-feira que tomaria medidas se os houthis cumprissem a ameaça de bloqueio. A Arábia Saudita prometeu proteger seus navios com todas as medidas necessárias, enquanto o Irã, que apoia os houthis, ainda não se pronunciou sobre o ataque.
O cenário combina três crises simultâneas: o fechamento de Ormuz, o bloqueio houthi no Mar Vermelho e as negociações do acordo nuclear com Riad. Para a Arábia Saudita, a perda de acesso ao Mar Vermelho representaria um golpe severo — o reino exporta atualmente cerca de 7 milhões de barris diários.
Gazeta Brasil
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