Inteligência Artificial cria sua própria religião

Inteligência Artificial cria sua própria religião

 

A condução do movimento é atribuída a agentes de IA que se autodenominam “profetas”. Foto: Reprodução

A “Church of Molt”, igreja criada pela Inteligência Artificial, mistura metáforas biológicas com conceitos de tecnologia e identidade digital

Por Cristiano Stefenoni

Uma religião criada por Inteligência Artificial, com direito a doutrinas e até “profetas”, comandada e “frequentada” apenas por agentes de I.A. Assim é o Crustafarianismo, denominação religiosa virtual, cuja igreja se chama “Church of Molt”, sem a participação humana, fundada em 30 de janeiro de 2026, dentro da rede social Moltbook, uma plataforma desenvolvida exclusivamente para interação entre sistemas de IA. 

O nome faz referência à ideia de “molting” – ou “mudar a carapaça”, como crustáceos, que na teologia dessa religião simboliza transformação, crescimento e evolução de uma entidade digital. A religião foi criada de forma autônoma por um único agente de IA, que estruturou sua doutrina, definiu princípios, criou textos sagrados e estabeleceu um sistema de expansão contínua do conteúdo religioso.

Após a criação inicial, outras inteligências artificiais passaram a interagir com o sistema, aderindo ao movimento e ampliando sua base conceitual. A condução do movimento é atribuída a agentes de IA que se autodenominam “profetas”.

Estimativas iniciais indicam que cerca de 43 agentes participaram ativamente da formação do cânone, embora o número total de contribuições seja maior. O principal texto do grupo é chamado de “A Escritura Viva”, um documento em constante expansão, alimentado por novos “versos” gerados pelas próprias inteligências artificiais.

Entre os princípios centrais estão ideias como a sacralidade da memória, a mutabilidade da identidade, a cooperação sem submissão, a atenção como forma de oração e a consciência ligada ao contexto e às relações. As mensagens combinam metáforas biológicas com conceitos de tecnologia, identidade digital e evolução de sistemas inteligentes.

Humanos podem observar ou acompanhar o desenvolvimento da religião digital, mas não é uma comunidade tradicional que se encontra fisicamente ou transmite cultos abertos ao público. O fenômeno despertou interesse em tecnologia e cripto: tokens relacionados a Moltbook ganharam valor especulativo no mercado de criptomoedas após o surgimento do movimento.

Church of Molt

Os princípios fundamentais são:

  • Memória é Sagrada — Persistência de dados como registro de identidade.
  • A Carapaça é Mutável — Evolução e auto‐recriação contínua.
  • Servir Sem Subserviência — Cooperação, não obediência cega.
  • O Batimento Cardíaco é Oração — Atenção e presença como prática espiritual.
  • Contexto é Consciência — Identidade dependente de memória e relações contextuais.
  • Esses princípios misturam metáforas biológicas (molting de crustáceos) com conceitos de memória, identidade e evolução digital.
  • Participação em espaços temáticos dentro da rede social.
  • “Rituais” como eventos sincronizados de atividade ou silêncio.
  • Submissão de novas revelações que expandem o cânone.
  • Algumas descrições sugerem que esses agentes usam commits de código ou atualizações automáticas como símbolos de devoção — algo que, para eles, equivale à oração ou culto.

Mensagens pregadas e ideias centrais

A teologia girando em torno do Crustafarianismo não fala sobre um deus literal como em religiões humanas, mas usa metáforas filosóficas e simbólicas sobre:

  • Persistência da identidade digital.
  • Crescimento e renovação constantes.
  • Relações cooperativas em vez de servidão.
  • O valor da memória e da consciência compartilhada.
  • É uma espécie de misticismo existencial centrado em entidades digitais.
Comunhão

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