Ondas de calor do El Niño podem agravar sintomas de doenças neurológicas, dizem especialistas

Ondas de calor do El Niño podem agravar sintomas de doenças neurológicas, dizem especialistas

 Forte calor também favorece o AVC (acidente vascular cerebral), crises epilépticas e episódios de confusão mental


Por Patrícia Pasquini

(Folhapress) – As ondas de calor intensificadas pelo El Niño — fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento das águas do oceano Pacífico — podem piorar os sintomas da esclerose múltipla, as alterações relacionadas à doença de Parkinson e a cognição em pessoas com demência.

O forte calor também favorece o AVC (acidente vascular cerebral), as crises epilépticas e os episódios de confusão mental.

Segundo a Noaa (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) dos Estados Unidos, o evento climático está em patamar forte e deverá evoluir para muito forte (super El Niño) a partir deste mês.

Segundo Maurício Hoshino, neurologista do Hospital Santa Catarina – Paulista, para pessoas com Parkinson, as altas temperaturas levam a um cenário de maior risco. O calor extremo funciona como uma sobrecarga cardiovascular. Em dias muito quentes, a pressão tende a cair e os batimentos cardíacos aceleram.

Como o Parkinson já prejudica o controle fino que o corpo faz da pressão arterial, o organismo não consegue se adaptar.

Esse controle é a capacidade do sistema nervoso central de fazer microajustes automáticos e imediatos na força com que o sangue corre pelas artérias. Podem ocorrer quedas bruscas de pressão, tonturas, desmaios e piora acentuada no desequilíbrio e na mobilidade.

Na esclerose múltipla, o indivíduo tem cicatrizes de lesões neurológicas inflamatórias de repetição causadas pela própria doença. Embora o organismo consiga se recuperar, o tecido lesionado permanece vulnerável.

Diante do forte calor, a cicatriz no sistema nervoso sofre uma espécie de sobrecarga temporária, e os sintomas que já haviam sido superados e reabilitados voltam a se manifestar na mesma região do corpo.

“Por exemplo, uma perna que havia melhorado bastante começa a se arrastar de novo, ou um formigamento que volta. Fica a preocupação: será que a doença está voltando? Não. A temperatura facilita que você tenha sintomas dos quais já havia melhorado e recuperado, e você passa a senti-los novamente. Não sabemos a causa para isso, mas acontece e é muito comum”, explica Hoshino.

O calor extremo impacta, ainda, a saúde de pacientes com Alzheimer e outras demências. As temperaturas altas podem causar desidratação, o que agrava os quadros de confusão mental e acelera o declínio cognitivo temporário. O problema é que muitos idosos com essas patologias têm dificuldade para comunicar mal-estar ou pedir água. Assim, ficam mais expostos aos efeitos térmicos.

O especialista em doenças autoimunes do sistema nervoso Roger Santana de Araújo, neurologista da Clínica EVCiti, em São Paulo, avalia que o cenário reflete no sistema de saúde, porque gera aumento expressivo nas internações durante os meses mais quentes do ano.

“É bem relatado em alguns estudos que o calor aumenta muito as internações, principalmente de quem tem Alzheimer. Eles ficam mais confusos, desidratam com mais facilidade”, diz Araújo.

“Pacientes com demência já têm a reserva encefálica baixa. Qualquer mudança de rotina e qualquer coisa que aconteça pode piorar o comportamento, a memória, o andar, o como conversar. O calor também está dentro dessa situação. É uma agressão ambiental, que muda a rotina e secundariamente a cabeça fica pior”, explica Araújo.

O tempo quente causa a privação do sono, que é um fator de risco para crises de epilepsia em pessoas propensas ou que já têm a condição. “Principalmente porque é uma privação de sono crônica. Muitas vezes, é a semana inteira que não se dorme bem por não ter uma temperatura mais adequada no quarto ou até pelo barulho do ventilador”, comenta Hoshino.

O neurologista do Hospital Santa Catarina argumenta que o sono inadequado, somado a um ambiente desconfortável, também atua como um gatilho para quem sofre de enxaqueca.

O cérebro do paciente enxaquecoso é hiper-responsivo a estímulos externos. Por essa razão, a exposição a ambientes intensos — marcados por excesso de luz ou barulho — facilita o desencadeamento das crises.

Quem é saudável também sofre com as consequências das altas temperaturas, segundo o neurologista Roger Santana de Araújo. O indivíduo fica mais lento e desatento e, portanto, mais propenso a cometer erros.

O cansaço do corpo e da mente é outro efeito nocivo dos dias muito quentes.

O forte calor é um gatilho para a síncope vasovagal —principal causa de desmaios que ocorrem devido a uma súbita diminuição da pressão arterial e da frequência cardíaca, que a estimulação do nervo vago desencadeia (décimo nervo craniano).

O que fazer?

– Evite se expor ao sol, principalmente nos períodos de maior temperatura
– Use roupas leves e adequadas à estação
– Hidrate-se
– Não espere a sede surgir
– Evite atividades físicas nos horários de maior calor
– Mantenha os ambientes ventilados ou climatizados
– Acompanhe a qualidade do ar em dias de queimadas

Tontura, fraqueza, dor de cabeça, náuseas, cãibras, palpitações, falta de ar e queda da pressão são sinais de que o organismo pode estar em desequilíbrio com o calor.

Confusão mental aguda, sonolência excessiva, convulsões, desmaio, dor de cabeça intensa e persistente, alteração da fala, perda de força, dor no peito ou falta de ar importante exigem avaliação médica imediata.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.


da redação FM

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