Leia a íntegra da carta do pai de Daniel Vorcaro aos ministros do STF

Leia a íntegra da carta do pai de Daniel Vorcaro aos ministros do STF

 

Henrique Moura Vorcaro, preso desde maio, afirma em carta aos ministros do Supremo que sua relação com investigados era “estritamente comercial”, nega obstrução de provas e relata crises de diverticulite na Penitenciária Nelson Hungria; ele também afirma que esposa e filha recebem ameaças.

O empresário Henrique Moura Vorcaro, pai do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, enviou uma carta aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) na qual pede a revogação de sua prisão preventiva e nega participação em qualquer esquema criminoso. Preso desde 14 de maio na Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem (MG), ele afirma que sua relação com as pessoas citadas na investigação era “estritamente comercial” e que foi incluído no caso “só porque é pai do Daniel”.

A íntegra da carta, datada de 21 de setembro de 2026, foi obtida pela Gazeta Brasil. No documento, endereçado ao ministro André Mendonça e com cópia aos demais ministros da Corte, Henrique declara falar “a verdade, nada além da verdade, em nome de Deus e da justiça, sob pena de perjúrio”.

Os argumentos da defesa

Henrique nega ser mandante ou participante de qualquer esquema criminoso e afirma que sua relação com as pessoas citadas na investigação era estritamente comercial. Ele menciona um “Sr. Phillipi” e um “Sr. Marilson”, com quem mantinha negócios havia mais de cinco anos, e afirma que “não existe nada nas minhas conversas com eles de coisas erradas, só dos negócios comerciais dos empreendimentos que são honestos”.

Ele também nega ter obstruído provas. “Falar que eu mudo de celular é uma mentira, eu tenho há 30 anos os mesmos 2 números, que estão com os Srs. da Polícia Federal”, afirma. Henrique acrescenta que recebeu um telefone do Sr. Phillipi após a prisão de Daniel, mas diz que o utilizou “3x, se muito”.

Abaixo a íntegra da carta

Belo Horizonte, 21 de setembro de 2026.

Excelentíssimo Senhor Ministro André Mendonça, (Com cópia aos Excelentíssimos Senhores Ministros da Suprema Corte Federal)

Eu, Henrique Moura Vorcaro, declaro falar a verdade, nada além da verdade, em nome de Deus e da justiça, sob pena de perjúrio. No dia 20 de agosto li aqui no parlatório com meu advogado o despacho do Exmo. Sr. Ministro André Mendonça e o do Exmo. Sr. Procurador Geral da República sobre a minha prisão. Li que o Exmo. Sr. Ministro concordou com a Polícia Federal dizendo que eu era mandante, participante, o que é um absurdo completo e sem menor sentido. Meus advogados peticionaram os contratos e documentos comerciais de negócios que existem há mais de 5 anos. Em 19 de junho enviei uma carta ao Sr. Ministro, cuja cópia está sendo protocolada juntamente com esta, onde relatei melhor os fatos.

Este Sr. Marilson, com o qual conversei algumas vezes por telefone, na verdade tinha uma parceria com o Sr. Phillipi e eu tinha uma relação comercial com o Sr. Phillipi. Nunca tive ideia do que esse rapaz fazia ou deixava de fazer, com turma ou sei lá quem. Acham que eu iria ligar para ele ou para o Phillipi antes ou depois do Daniel ser preso se eu tivesse algum envolvimento com algo escuso ou alguma coisa a esconder? Óbvio que não. Eu não sou burro ou ingênuo assim, não tenho o que esconder. Esse negócio que eles falaram de “a turma está cobrando aqui” para mim foi porque estavam aflitos financeiramente. O Sr. Phillipi e o Sr. Manolo, mencionados na investigação, tinham e tem participação para receber de empreendimentos. Como relatei na primeira carta que enviei ao Sr. Ministro, que protocolo em anexo, o Sr. Phillipi havia cedido ao Sr. Marilson, 5% dos 20% de participação da qual ele tinha, tem (família), do resultado líquido futuro do empreendimento de Campo Grande/RJ e 50% dos 4% de participação que Phillipi tinha do empreendimento a ser executado no Lagoa/Nova Lima e este negócio era entre eles, Phillipi e Marilson. Se eu tivesse alguma coisa escusa com eles, teria algo no telefone deles. Não existe nada nas minhas conversas com eles de coisas erradas, só dos negócios comerciais dos empreendimentos que são honestos. Essas pressões para adiantamento de dinheiro eram de negócios comerciais. Se pagavam alguém ou se usavam esse recebimento para qualquer turma ou pessoa, eu não tenho simplesmente nada a ver com isso, não conheço nem sei de turma nenhuma. Não existe nenhum relato, conversa, testemunha, ou fatos, em 5 anos de relação comercial com Sr. Phillipi que indicasse qualquer tipo de ilicitude, NADA. Esses assuntos todos eu fiquei sabendo pela Polícia Federal, após as operações e pela mídia, ESSA É A PURA VERDADE.

Agora, vocês inventarem essa história bizarra porque um rapaz falou para mim que “tem que pagar turma” é uma maldade, perseguição, injustiça. Quantas vezes na minha vida eu, precisando de dinheiro, liguei para alguém que me devia ou parceiro de negócios e disse que precisava de pagar alguma coisa, alguma pessoa, uma compra, que era urgente. Qualquer pessoa faz isso. Sempre, a maioria das pessoas, usa de algum argumento para conseguir receber mais rápido! É evidente que este é o caso deles comigo. É óbvio que foi isso! Não existe relativismo na verdade. Ou é verdade, ou é mentira. A única coisa que pedi para este rapaz Marilson fazer para mim foi tentar tirar meu porte de arma federal, o que não conseguiu. Também pegou um relatório, por conta própria pois não pedi, a respeito de um rapaz que falou mal de mim na mídia, sendo que eu nunca pedi isso, já sabia quem era o rapaz, mas queria me agradar com alguma coisa. Nunca tratei com ele nada além disso, o vi pouquíssimas vezes, umas três ou quatro vezes, quando o Sr. Phillipi foi ao meu escritório com ele e quando fui fazer o psicotécnico para tirar porte de arma. Meu contato e contratos eram com o Sr. Phillipi e depois com o Sr. Manolo que toma conta do terreno de Campo Grande/RJ e me vendeu e intermediou na compra de outro terreno, como já relatei. O Sr. Phillipi já havia recebido os valores que combinei com ele de adiantamento há mais de um ano. Mas, em dezembro de 2025, me ligaram aflitos pedindo para antecipar mais algum recurso pois precisavam muito. Eu disse que não podia, que eles receberiam no lançamento dos empreendimentos, como sempre tratamos. Porém me pressionaram, insistiram muito e eu acabei adiantando mais uma parte, mesmo sem poder, essa é a pura verdade. Nunca ameacei, nunca participei de nada com eles. Não existe na minha vida algum histórico de envolvimento meu com ameaças, algo escuso com ninguém, em lugar nenhum. É uma história bizarra, vergonhosa, fantasiosa…, mas quando alguém lê o relatório da Polícia Federal, fica com dúvida por causa da forma distorcida da escrita, criaram uma história sem comprovação nenhuma dizendo que eu era mandante, chefe, pelo amor de Deus, isso não existe! Mas os investigadores são a Polícia Federal, já devem ter certeza a esta altura que eu não tenho nada a ver com isso, no mínimo. Ficar nesta história completamente fantasiosa, comigo preso há mais de 90 dias, por um engano completo, não dá mais. Se eu estivesse frente a frente com os Srs. não tenho dúvida alguma de que iriam acreditar, não é questão só de hombridade e palavra, é questão da realidade comercial, de todos os documentos, pagamentos e tratativas sobre empreendimentos que são de alta lucratividade que interessa a meu grupo e a outras empresas incorporadoras que participam.

A Polícia Federal falou também que eu obstruo provas. Como podem falar isso, se tudo que fazia era do meu número de celular há 30 anos? Falar que eu mudo de celular é uma mentira, eu tenho há 30 anos os mesmos 2 números, que estão com os Srs. da Polícia Federal. Ganhei um telefone do Sr. Phillipi após a prisão do Daniel que, se eu usei 3x foi muito, pois eu mesmo disse que não precisava daquilo, como ele insistiu e comprou de presente, eu aceitei para não fazer desfeita. Se eu preocupasse em esconder alguma coisa não teria nada nos meus celulares, sempre os usei para todas as conversas, esta é a prova de que nunca deixei de falar nos meus mesmos números há 30 anos.

É importante os Srs. saberem que Daniel não tratava nada de Banco ou de negócios dele comigo, até me rejeitava. Talvez eu seja a pessoa que ele menos falava de seus negócios. Fiquei sabendo destes assuntos por notícias da mídia. Fabiano nunca abriu a boca para falar nada comigo também, eles sempre se esquivavam de mim. Nunca tratou nada de assunto comercial dele comigo. Verifiquem isso com qualquer pessoa, parceiros deles em Belo Horizonte, São Paulo ou Brasília: todos sabem que eu era uma pessoa totalmente não bem-vinda no Banco ou em qualquer coisa do Daniel. Isso é a verdade e a realidade. Para mim era uma tristeza, sofria muito com esta rejeição. Minha relação com Daniel de pai e filho é boa, eu o amo muito, muito, muito. Ele trabalhou comigo dos 15 aos 33 anos de idade, por todos os dias, após esse período ele quis um voo solo e eu sentia muita falta dele. Com o sucesso da venda que eu fiz para a Hapvida, das empresas que eu apresentei ao Banco e fundos, com o lucro que deu ao Banco, ele pelo menos passou a me respeitar mais. Até entendo os holofotes sobre o Caso Master, mas não queiram me arrastar para dentro disso só porque eu sou pai do Daniel. Tenho muitos negócios, todos honestos. Preciso da minha reputação e dignidade restauradas, por favor sejam corretos e justos. O ofício da Polícia Federal é fazer justiça, não injustiça. É descobrir a verdade, não criar histórias por hipóteses absurdas e sem comprovação. Vou documentar e relatar meus negócios para assim que sair daqui mostrar aos Srs. Planejado para 2026/2027 os lançamentos de vários empreendimentos. São investimentos de décadas e prontos para lançamento. Como não tenho dinheiro escondido, desviado ou negócios escusos, é importante para mim eu mostrar aos Srs. pois fui vítima só de mentiras, uma prisão arbitrária, errada. Quarenta e sete anos de muito trabalho, muita luta, honestidade, transparência e estão hoje me destroçando com mentiras. Faço um compromisso com os Srs. de que se tiver uma mentira no que estou falando, das questões que foram alvo da minha prisão, os Srs. podem me prender novamente para o resto da vida. Como é a verdade, os Srs. têm que ter o compromisso de restituir a minha imagem e retratar na mídia. Urgente. Qual destas 3 instituições e seus líderes nesta investigação terão coragem e hombridade para retratar em público essa injustiça e mentira? Sempre fui uma pessoa muito reservada, nunca apareci em nada. Mas depois dessa exposição catastrófica eu terei que ir a público, prefiro ir após os Srs. declararem que foi um engano, isso se Deus me der saúde. Assim que sair daqui vou cuidar primeiro da minha saúde e, após isso, gostaria se possível de estar com os Srs. para apresentar meus negócios. Não é possível que queiram destruir o trabalho de mais de 4 décadas de negócios privados e honestos! Imaginem por dez minutos, os Srs. ficarem em uma prisão como a Nelson Hungria, sem culpa. É fácil colocar uma pessoa na cadeia sem culpa? Imaginem ficar quase quatro meses privados de sua família, de acesso a saúde, de suas contas correntes… sem motivo. Pois no meu caso eu não tenho culpa e sou honesto.

Exmo. Sr. Ministro André Mendonça, quando fui preso estando o Sr. como relator, fiquei tranquilo pois imaginei que iria enxergar a verdade e eu ficaria no máximo duas semanas. Enviei 3 cartas ao Sr., só a primeira estou protocolando aqui. Imaginei que um homem de Deus não iria permitir essa injustiça. Erraram demais comigo. Clamo aos demais Exmos. Srs. Ministros do Supremo Tribunal Federal que possam corrigir essa injustiça, essa desumanidade que parece mais um ódio, uma perseguição cega, uma obsessão. Parece que tanto faz me deixar há mais de 4 meses preso, sem culpa nenhuma, passando mal todos os dias, arriscando ter um sintoma irreversível, longe da minha esposa que também está doente, sendo que em 43 anos nunca ficamos separados por mais de 5 dias. Me perdoem por este desabafo, mas minha vida corre perigo. Tive crise de diverticulite na prisão, uma doença séria crônica da qual convivo há anos. Tive picos de pressão arterial aqui que não sei se foi para cima ou para baixo, pois os sintomas são os mesmos. Estou a base de remédios de dor e antibióticos. Quanto ao que ensejou minha prisão, existem provas e documentos de relação comercial lícita de mais de 5 anos, mas parece que não estão preocupados com a verdade. Por uma história criada, inventada, com base em uma mensagem, ao invés de entender que são 5 anos de pagamentos e negócios. Não tem como me relacionarem a algo que eu nunca fiz! As provas estão ao longo de 5 anos e não de 1 mensagem! Minha saúde está tão debilitada que estou desde o dia 20 de agosto tentando escrever e terminar esta carta. Sou idoso, estou tendo fortes dores de cabeça e na nuca, mesmos sintomas que me levaram a ser internado por duas vezes neste ano, sendo que uma das vezes tive amnésia global transitória e na outra tive picos de pressão. Na enfermaria aqui somente 2 vezes tive pressão 16×10 e 10×6 como já relatei. Porém os picos de pressão são em horários dos quais eu não consigo aferir, este é o maior risco. Peço sempre aos policiais a noite para ficarem a postos para me levarem em um hospital urgente caso precise, mas sei que será muito difícil por serem 3.000 presos. O pior de tudo é que 99% de verdade, para mim, é mentira. Eu estou falando 100% da verdade. Quero a revogação da prisão pois não tenho culpa nenhuma. Mas estou correndo risco seríssimo de saúde. Minha dor abdominal não curou, estou a base de dipirona e água, pois a comida daqui não é propícia a uma crise de diverticulite. Estou agora iniciando o terceiro ciclo de antibiótico dentro destes quatro meses. Srs., eu já fiz um compromisso acima sobre a verdade, colocando o meu pescoço a prova. Sejam justos e ágeis comigo. Cada dia aqui é um risco sério. A minha prisão é um erro total. Deixaram minha esposa e filha sozinhas, recebendo ameaças, com 2 recém-nascidos, um netinho de 2 anos e todas as contas e patrimônios bloqueados, isso sem existir uma acusação formal. É isso que é justiça? Tenho direito constitucional de responder em liberdade! Clamo aos Excelentíssimos Srs. por resposta e por justiça. Por ser verdade, firmo a presente.

Respeitosamente,
Henrique Moura Vorcaro


Gazeta Brasil

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