Pesquisadores da Universidade de Florença identificaram uma partícula com estrutura cristalina inédita em amostras de “hiroshimaíta”, o vidro formado pelos detritos da bomba atômica. A descoberta abre novas frentes para a ciência dos materiais e a investigação forense nuclear.
Um grupo de cientistas da Universidade de Florença, na Itália, identificou nas areias da baía de Hiroshima um material metálico nunca antes registrado na Terra. A descoberta foi publicada na prestigiada revista científica Science Advances e resulta da análise de 34 amostras de “hiroshimaíta” — nome dado ao vidro e aos fragmentos sólidos formados a partir dos escombros vaporizados da cidade durante a explosão atômica de 6 de agosto de 1945.
Em uma das amostras, uma pequena esfera de vidro revelou uma partícula metálica com apenas algumas micras de tamanho, ostentando composição química e padrão de difração inéditos. O estudo, que utilizou microscopia eletrônica e difração de raios-X, demonstrou que o calor e a pressão extremos da detonação não apenas vaporizaram materiais urbanos, mas forjaram combinações atômicas que não ocorrem na natureza nem na indústria convencional.
A amostra de hiroshimaíta estudada foi formada quando a explosão nuclear de 6 de agosto de 1945 vaporizou edifícios, metais, solo, vidro e água em Hiroshima. (Science Advances)
A composição da nova liga
A partícula encontrada é composta majoritariamente por:
Ferro: 62,7%
Cromo: 14,7%
Níquel: 9,0%
Silício: 7,0%
(Com traços de manganês, molibdênio e alumínio)
Essa combinação não corresponde a nenhuma liga comercial, como os aços inoxidáveis ou superligas conhecidas. A análise cristalográfica revelou que o material cristaliza no grupo espacial $P2_13$, com uma estrutura derivada da chamada “beta-Mn” e conhecida como tipo $AlAu_4$ — um arranjo atômico muito mais complexo do que as formas cúbicas comuns do aço.
‘Fóssil atômico’ e novos horizontes na ciência
Segundo os pesquisadores, as condições que permitiram a formação da liga — mistura violenta de vapores metálicos e silicatados, resfriamento ultrarrápido e pressões extremas — são irrepetíveis em métodos de fabricação comuns.
“Cada partícula preservada nas areias de Hiroshima é um ‘micro-reator’ que congelou em seu interior a física extrema de um instante irrepetível da história”, aponta o estudo.
O fenômeno guarda paralelo com a descoberta da “trinitita” (vidro gerado pelo teste atômico Trinity, nos EUA), onde também foi identificado um quasicristal único gerado por explosão nuclear.
Implicações forenses e tecnológicas
Além da relevância histórica e científica, a descoberta abre caminhos práticos:
Ciência dos Materiais: A estrutura pode servir de modelo para o desenvolvimento de novas ligas ultrarresistentes a altas temperaturas, corrosão e desgaste extremo.
Perícia Forense Nuclear: A assinatura do microfragmento permite mapear os materiais exatos do dispositivo e as condições termodinâmicas da detonação.
O próximo passo da equipe será tentar reproduzir a liga em laboratório por meio de técnicas de fundição ultrarrápida e metalurgia avançada para estudar suas propriedades físicas.
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