Número de interdições em rodovias caiu drasticamente após negociação com a COB e medidas de força autorizadas pelo Parlamento; país busca pacificação.
© REUTERS/Patricia Pinto/Proibida reprodução
A Bolívia registrou uma queda expressiva no número de bloqueios de rodovias neste domingo (21). Após atingir o ápice com mais de 80 pontos de interdição nas últimas semanas, o país amanheceu com 31 bloqueios e encerrou o dia com apenas 12 pontos de resistência, conforme dados da Administradora de Estradas Bolivianas (ABC). O arrefecimento ocorre após um acordo firmado na sexta-feira (19) entre o governo de Rodrigo Paz e a Central Operária da Bolívia (COB), somado à decretação de um estado de exceção aprovado pelo Parlamento no último sábado (20).
Acordo e pacificação
O entendimento com a COB, principal central sindical do país, prevê um período de teste de 90 dias para as demandas sociais. Entre os compromissos assumidos pelo governo Paz estão a não criminalização de manifestantes, o fim da perseguição a líderes sindicais e a criação de uma comissão para avaliar a liberação de detidos durante os protestos. Além disso, o Palácio Quemado assegurou que não privatizará empresas públicas estratégicas, ponto central das reivindicações dos trabalhadores.
Apesar da negociação, a situação política permanece tensa. O presidente Rodrigo Paz decretou estado de exceção, medida que permite o uso das Forças Armadas e a imposição de toques de recolher em áreas específicas. Em pronunciamento, o mandatário classificou os bloqueios como uma estratégia de “narcoterrorismo” destinada a desestabilizar a democracia, direcionando críticas ao ex-presidente Evo Morales, que nega qualquer ingerência sobre o movimento social.
Resistência e fragmentação
Nem todos os setores aderiram ao acordo. Organizações como a Confederação Nacional de Mulheres Camponesas Indígenas “Bartolina Sisa” mantêm a exigência pela renúncia de Rodrigo Paz. A dirigente Virgínia Antiñapa refutou as acusações de que os protestos seriam manobrados por partidos políticos, defendendo que a mobilização é uma luta por reivindicações históricas dos setores camponeses e indígenas.
Especialistas apontam que a heterogeneidade das frentes de protesto dificulta um desfecho unificado. Alina Ribeiro, doutoranda em ciência política pela USP, observa que o desgaste de 50 dias de interdições que geraram escassez de mantimentos e medicamentos pressiona pela normalização das atividades, mas a divisão interna entre os grupos sociais torna a resolução definitiva do conflito um processo complexo. Enquanto o governo tenta conter a instabilidade com a força do estado de exceção, o país aguarda para verificar se a trégua de 90 dias será suficiente para apaziguar os ânimos de uma população insatisfeita.
Por Lucas Pordeus Leon - Repórter da Agência Brasil - 20
da redação FM
Postar um comentário