Argentina coloca o pé no acelerados para se tornar potência com acordo de US$ 20 bilhões, liberação imediata de US$ 1 bilhão, reservas acima de US$ 5,5 bilhões e queda da pobreza para 28,2%

Argentina coloca o pé no acelerados para se tornar potência com acordo de US$ 20 bilhões, liberação imediata de US$ 1 bilhão, reservas acima de US$ 5,5 bilhões e queda da pobreza para 28,2%

 ECONOMIA


Argentina avança com acordo de US$ 20 bilhões com o FMI, reforça reservas, reduz pobreza e tenta consolidar estabilidade econômica em cenário global desafiador.


Avanço no acordo com o FMI reforça estratégia econômica da Argentina, amplia reservas internacionais e melhora indicadores sociais, enquanto governo busca consolidar estabilidade, recuperar confiança dos mercados e sustentar crescimento em cenário global mais desafiador.

A Argentina avançou nesta quarta-feira (15) em uma frente decisiva de sua estratégia econômica ao fechar com a equipe técnica do Fundo Monetário Internacional a segunda revisão do programa de US$ 20 bilhões firmado com o organismo.


Com o entendimento, o país fica mais perto de receber um novo desembolso de US$ 1 bilhão, ainda dependente do aval do Conselho Executivo do FMI, em meio à tentativa do governo de Javier Milei de reforçar reservas, sustentar a estabilização macroeconômica e melhorar sua posição diante dos mercados.

Acordo com o FMI e impacto nas reservas da Argentina

Em nota, o Fundo afirmou que o ritmo das reformas ganhou força nos últimos meses e destacou um ambiente político mais favorável às mudanças centrais defendidas pela equipe econômica.


O comunicado também citou avanços nas políticas monetária e cambial, além da recomposição de ativos externos, um dos pontos mais sensíveis do acordo e uma das principais fragilidades históricas da economia argentina.

O programa atual foi assinado há cerca de um ano, com prazo de 48 meses, e passou a ser o 23º acordo entre a Argentina e o FMI.

Na prática, ele serve para reorganizar o cronograma do entendimento anterior, de US$ 44 bilhões, e dar ao governo margem financeira para desmontar restrições cambiais, reduzir distorções acumuladas e, mais adiante, tentar reconstruir o acesso ao crédito internacional em condições menos adversas.

Reservas internacionais e pressão da dívida

Desde a assinatura, a capacidade de elevar as reservas internacionais se transformou em um dos principais termômetros do programa.

Na primeira revisão, aprovada em julho do ano passado, o FMI reduziu as metas de acumulação até 2026 depois de o país não alcançar o objetivo original.

Ainda assim, o organismo passou a registrar de forma mais positiva o desempenho recente do Banco Central argentino, que intensificou as compras de moeda estrangeira no mercado oficial.

Segundo o balanço mais recente citado por agências internacionais, o banco central já havia comprado mais de US$ 5,5 bilhões em 2026, movimento visto como essencial para cobrir compromissos da dívida e recompor parte do colchão externo.

O avanço, porém, não elimina as restrições estruturais: o estoque total de reservas segue pressionado pelos pagamentos correntes e pela necessidade de manter confiança em uma economia que ainda convive com inflação elevada e custo de financiamento alto.

Apoio político e agenda de reformas econômicas

A nova etapa da revisão também foi acompanhada por um sinal político considerado relevante pelo mercado.

Após a vitória legislativa de Milei em outubro, o FMI passou a mencionar de forma mais explícita o respaldo institucional à agenda do governo, incluindo o orçamento de 2026 e projetos voltados à formalização de ativos financeiros mantidos por residentes.

As propostas também envolvem a ampliação da flexibilidade trabalhista, a ratificação de acordos comerciais e o estímulo a investimentos em mineração, um dos setores que Buenos Aires tenta transformar em fonte mais robusta de divisas.


Reação do mercado e comportamento dos títulos argentinos


A reação dos títulos argentinos denominados em dólar mostrou que o mercado segue atento ao processo, mas ainda sem leitura uniforme sobre o risco do país.

No pregão desta quarta, os papéis com vencimento em 2038 avançaram mais de dois centavos, para 79,25 centavos de dólar.

Enquanto isso, os bônus de 2041 recuaram 0,4 centavo, para 70,75.

Mesmo com a melhora parcial, os rendimentos continuam acima de 10%, um patamar que evidencia cautela dos investidores e sugere que a volta plena aos mercados internacionais ainda depende de uma consolidação mais prolongada.


Ajuste econômico de Milei e efeitos sobre inflação e renda


No centro dessa estratégia está a tentativa de Milei de sustentar o ajuste sem perder os ganhos recentes na frente inflacionária.

Desde que chegou ao poder, o presidente adotou um programa de austeridade severa, com corte de gastos, recomposição de preços relativos e mudanças na condução cambial.

O plano ajudou a esfriar uma dinâmica inflacionária que havia alcançado níveis extremos e colaborou para a saída da recessão, embora o custo social inicial tenha sido elevado e tenha pressionado fortemente o consumo e a renda das famílias.

Esse impacto apareceu de forma clara nos primeiros meses do ajuste, quando milhões de argentinos enfrentaram perda de poder de compra e deterioração do orçamento doméstico.

Mais recentemente, porém, os dados oficiais passaram a mostrar uma melhora relevante no indicador de pobreza.

De acordo com o INDEC, a taxa caiu para 28,2% no segundo semestre de 2025, abaixo dos 31,6% do semestre anterior e dos 38,1% registrados no mesmo período de 2024.


Pobreza em queda e sinais de estresse no consumo


O número foi rapidamente incorporado pelo governo como evidência de que a estabilização começou a produzir algum alívio social depois do choque inicial.

Ainda assim, a melhora convive com sinais de estresse em outras áreas da economia doméstica.

Relatos recentes apontam avanço da inadimplência das famílias, reflexo da inflação ainda alta, da redução de subsídios e da compressão da renda disponível.


Declarações do governo e expectativas econômicas


O ministro da Economia, Luis Caputo, que está em Washington para as reuniões de primavera do FMI e do Banco Mundial, celebrou o entendimento com o Fundo.

Nas redes sociais, ele afirmou que o acordo representa “um passo muito importante” na consolidação da estabilidade macroeconômica buscada pelo governo ao longo dos últimos dois anos.

Ele também destacou que a medida deve contribuir para fortalecer o crescimento do país.

Apesar do avanço, o quadro externo se tornou menos favorável nas últimas semanas.

O FMI reduziu sua projeção para o crescimento argentino em 0,5 ponto percentual e agora espera expansão de 3,5% em 2026.

Ao mesmo tempo, a estimativa de inflação subiu para 30,4%, quase o dobro da previsão anterior.

A revisão ocorreu em um ambiente internacional marcado pela alta dos combustíveis e pelos efeitos econômicos da escalada do conflito no Oriente Médio.

Nesse contexto, o acordo técnico com o FMI funciona ao mesmo tempo como reforço de caixa e como selo político para a continuidade do programa econômico.

O desembolso de US$ 1 bilhão, se confirmado, amplia a margem de manobra do governo em uma etapa na qual a Argentina tenta mostrar disciplina fiscal, recomposição gradual de reservas e capacidade de sustentar reformas sem interromper a recuperação da atividade.


Escrito porAlisson Ficher


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