Gesto simbólico em evento na orla de Vitória (ES) provoca debate sobre espiritualidade, fé, unidade, oração e papel da liderança
Por Patricia Scott
Recentemente, a Praia de Camburi, em Vitória (ES), foi palco do Luau Capixaba Cristão. Um caixão foi levado para o evento com o intuito de “velar uma igreja que morreu, que não prega o verdadeiro Evangelho, uma igreja sem testemunho de Cristo, que engana os fiéis, como lobo em pele de cordeiro”. O gesto, conforme os organizadores, é um gesto que representa um alerta: o Evangelho não mudou, e a verdade precisa ser anunciada.
A reunião é um encontro de pessoas de todas as idades, principalmente jovens, reunidas com um único propósito: adorar a Jesus Cristo. Não há uma igreja ou uma denominação organizadora. A iniciativa é idealizada pela criadora de conteúdo Dai Gomes. O próximo Luau Cristão Capixaba ocorrerá em 24 de janeiro de 2026.
O pastor Wagner Escatamburgo, da Assembleia de Deus – Ministério Vale das Virtudes, em Jardim Trianon, Taboão da Serra (SP), avalia que se preocupar com a morte de uma igreja ou o fechamento dela pode até demonstrar boa intenção. No entanto, para ele, é preciso refletir que o fim de uma congregação não ocorre de maneira repentina, sendo o resultado de um processo gradual de desgaste espiritual. “Antes da morte física, institucional, existe um longo enfraquecimento interior.”
Na análise do pastor, o encerramento de um templo é apenas a consequência visível de falhas acumuladas ao longo do tempo dentro da própria comunidade de fé. Escatamburgo destaca ainda que a liderança tem responsabilidade direta nesse processo e que medidas corretivas deveriam ter sido adotadas antes que a situação chegasse a um ponto crítico.
Segundo ele, quando líderes toleram práticas incompatíveis com o testemunho cristão — como o engano aos fiéis e comportamentos que distorcem a fé — acabam contribuindo para o esvaziamento espiritual da igreja. O pastor ressalta que as Escrituras oferecem orientações claras para manter uma comunidade cristã saudável e equilibrada, mas a falta de ensino bíblico e a ausência de ações coerentes por parte das lideranças adoece a congregação.
Escatamburgo reforça que a vitalidade da igreja depende da centralidade da Palavra de Deus, aliada à oração constante e à unidade entre os membros. De acordo com ele, uma igreja saudável permite que Cristo conduza sua vida comunitária. “Palavra, oração e unidade fraterna são fundamentais para que a igreja permaneça firme diante das adversidades”, finaliza.
Fidelidade às Escrituras
O teólogo e pastor presbiteriano Isaías Lobão faz críticas contundentes a iniciativas religiosas que defendem uma espiritualidade “sem igreja e sem denominação”, avaliando que esse discurso, embora atraente à primeira vista, carrega riscos teológicos significativos. Para ele, propostas que prometem romper com tradições em nome de uma adoração supostamente mais pura acabam promovendo confusão doutrinária.
Segundo Lobão, a contradição aparece quando eventos desse tipo afirmam rejeitar estruturas eclesiásticas, mas ao mesmo tempo reúnem católicos e evangélicos como se compartilhassem um mesmo corpo doutrinário. Na análise do pastor, esse nivelamento ignora diferenças fundamentais de fé e compromete verdades centrais do Evangelho. “Essa ambiguidade não é ingênua; ela corrói a identidade cristã”, atesta.
O líder presbiteriano também critica manifestações simbólicas que anunciam a “morte da igreja institucional”, como encenações públicas e atos performáticos. Para ele, esse tipo de gesto revela uma compreensão superficial da fé cristã e reflete um espírito pós-moderno que rejeita autoridade, tradição e doutrina em favor de experiências subjetivas e emocionais.
Lobão destacou que, biblicamente, a igreja não é uma experiência individual nem uma reunião ocasional de pessoas, mas uma comunidade redimida, unida pela fé em Cristo e sustentada pela vida comunitária. “Não existe cristianismo isolado. Os sacramentos, o crescimento espiritual e o testemunho da fé são vividos no contexto da comunidade.”
Ao abordar o caminho para uma igreja espiritualmente viva, o pastor afirmou que a resposta não está em adaptar-se ao mundo, mas em aprofundar a fidelidade às Escrituras. Ele defende o retorno aos fundamentos históricos da fé cristã — Palavra, oração, sacramentos, discipulado e firmeza doutrinária — e lembra que a missão da Igreja se expressa na adoração a Deus, na comunhão entre os fiéis, na edificação espiritual, na proclamação do Evangelho e no serviço ao próximo. “A igreja permanece viva quando permanece firme na Rocha, proclamando a verdade com convicção, arrependimento e fé”, conclui.
Comunhão
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