Filhos
Pequenas mudanças de postura que fazem grandes diferenças na conversa com adolescentes, transformando conflitos em possibilidades de diálogo
Imagine a cena. São 21h e mais uma discussão começa por causa do tempo de tela. Você está cansada, esperando que a casa desacelere. Seu filho adolescente, por outro lado, insiste que precisa de “só mais cinco minutos” no TikTok, no Youtube ou Instagram. A conversa esquenta, a paciência diminui e ambos se recolhem frustrados.
Situações assim não acontecem por falta de amor, mas porque a comunicação entre pais e adolescentes se enrosca facilmente em expectativas, pressões e interpretações diferentes do mesmo acontecimento.
A psicóloga Bethany Mannion, do Dwell Ministry, lembra que esses momentos não devem ser encarados como fracasso. “O conflito pode ser um caminho para o crescimento quando entendemos que pais e adolescentes vivem realidades internas diferentes, mas igualmente legítimas”, diz. Ela propõe uma mudança de postura que chama de “caminhar pelo meio”, uma forma de enxergar duas verdades ao mesmo tempo.
“Quando um adolescente diz que precisa ficar online porque isso o ajuda a se sentir conectado, e o pai diz que isso atrapalha o sono, ambos estão certos. A comunicação melhora quando cada lado reconhece a verdade do outro”, expõe a terapeuta.
Por que a comunicação parece tão difícil hoje
A sensação de desencontro tem crescido. Muitos adolescentes relatam que os pais não entendem suas emoções, enquanto adultos se sentem desorientados diante da cultura digital. Cada lado tem seus motivos. Para os pais, a preocupação se volta ao sono, ao foco e à saúde mental. Para os adolescentes, o mesmo celular pode representar amizade, pertencimento e alívio.
Bethany observa que essa diferença não precisa virar disputa. “Famílias funcionam melhor quando evitam pensar em termos de ‘ou isto ou aquilo’ e começam a trabalhar com o ‘isto e aquilo’. Os relacionamentos se fortalecem quando deixamos espaço para mais de uma perspectiva”, explica.
Essa atitude, segundo ela, tem ressonâncias bíblicas. Tiago 1:19 aconselha: “Sejam prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para se irar”. “É uma forma de lembrar que a escuta, antes da reação, cria caminhos onde antes existiam barreiras”, afirma.
O que é “caminho do meio”
No coração da proposta está um reposicionamento. Não se trata de relativizar limites, mas de estabelecer um clima em que eles sejam recebidos com mais maturidade. “Validar as emoções de alguém não significa concordar, significa reconhecer que aquilo faz sentido para aquela pessoa. Isso reduz a força defensiva e aumenta a disposição para cooperar”, Bethany explica.
Ela oferece exemplos de respostas:
– “Eu entendo que ficar online te ajuda a se conectar com seus amigos, e também quero garantir que você descanse o suficiente”.
– “Entendo que você está cansado, e precisamos conversar sobre os horários porque isso afeta suas manhãs”.
São frases que mantêm a autoridade dos pais, mas retiram o peso da disputa.
Quatro atitudes práticas para aplicar em casa
- Validar antes de corrigir
Segundo Bethany, a validação muda o clima emocional da conversa. “Quando um adolescente sente que foi compreendido, ele não precisa lutar pela própria perspectiva. Isso abre espaço para limites mais consistentes”.
Uma simples frase como “faz sentido você querer relaxar depois do dia que teve” já desmonta boa parte da tensão.
- Trocar o “mas” pelo “e”
“‘Mas’ cancela tudo o que veio antes”, diz Bethany. “Quando usamos ‘e’, mostramos que duas coisas podem coexistir”.
Essa pequena troca transforma frases de confronto em frases de colaboração.
- Falar a partir da mente sábia
Bethany costuma explicar que todos alternamos entre reações emocionais explosivas e racionalizações frias. O equilíbrio é a tal “mente sábia”, que junta sensibilidade e clareza.
“Responder da mente sábia não significa apagar emoções, mas escolher o tom que mantém o relacionamento seguro”, diz.
É aquela pausa de três segundos antes de reagir – suficiente para mudar o rumo do diálogo.
- Fazer reparo após o conflito
“Famílias saudáveis não são famílias sem conflitos. São famílias que reparam rápido”, afirma Bethany.
Pedir desculpas, reconhecer exageros e tentar novamente ensinam ao adolescente responsabilidade, humildade e reconciliação.
Efésios 4:2-3 mostra isto quando aconselha a humildade, a paciência e o vínculo da paz.
A fé como força nessa jornada
A combinação entre verdade e graça, tão presente na vida e no ensino de Jesus, dialoga diretamente com o caminho do meio descrito por Bethany. Limites sem dureza, firmeza sem humilhação, amor que orienta sem sufocar. As virtudes do fruto do Espírito (Gálatas 5:22-23) são também habilidades emocionais que fortalecem a relação com os filhos.
Trilhar o caminho do meio não significa ceder em tudo, nem ser permissivo. Significa andar juntos, mesmo quando discordam. É substituir controle por conexão, crítica por curiosidade, pressa por presença. Com o tempo, cada validação, cada conversa mais calma, cada pedido de desculpas sincero constrói uma ponte.
Quando pais e adolescentes aprendem a conversar desse lugar, a comunicação deixa de ser campo de batalha e passa a ser espaço de crescimento, onde a graça, a verdade e a maturidade se encontram.
Por Patrícia Esteves - Comunhão

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