Ao lançar livro em São Paulo, ministro da Fazenda critica herança histórica da elite econômica e analisa o capitalismo superindustrial marcado por desigualdade e fragilidade democrática.
© Rovena Rosa/Agência Brasil
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que a classe dominante brasileira encara o Estado como se fosse de sua propriedade. A declaração foi feita durante o lançamento do livro Capitalismo superindustrial, em evento realizado no Sesc 14 Bis, em São Paulo, com participação de intelectuais e pesquisadores.
Segundo Haddad, essa relação entre elite econômica e poder público tem raízes históricas profundas. Ele defendeu a tese de que, após a abolição da escravidão, o Estado teria sido entregue aos grandes proprietários rurais como uma forma de compensação, consolidando um modelo de poder concentrado que se mantém até os dias atuais.
Para o ministro, a Proclamação da República não significou uma ruptura efetiva com as estruturas de dominação. Em vez disso, teria ocorrido a substituição da antiga classe dirigente por uma elite econômica que passou a administrar o Estado como extensão de seus próprios interesses, o que ajuda a explicar a fragilidade democrática no país.
Haddad destacou que, sempre que esse arranjo histórico é questionado, há reações imediatas para preservar o status quo. Segundo ele, a democracia brasileira enfrenta dificuldades justamente por representar uma tentativa de contestação desse modelo, o que gera tensões institucionais recorrentes.
No livro, o ministro analisa o que chama de capitalismo superindustrial, um estágio do sistema econômico global caracterizado pelo aumento da desigualdade, pela incorporação do conhecimento como fator central de produção e por novas configurações de classe. Ele avalia que, sem a atuação do Estado para mitigar os efeitos do capitalismo, a tendência é de aprofundamento das desigualdades sociais.
A obra reúne estudos desenvolvidos por Haddad ao longo das décadas de 1980 e 1990, revisados e ampliados, incluindo análises sobre economia política, o sistema soviético e a ascensão da China como potência global. O autor também aborda os processos históricos de industrialização no Oriente, destacando diferenças em relação aos modelos adotados na Europa e nas Américas.
Segundo Haddad, as revoluções orientais tiveram caráter antissistêmico e antiimperialista, com uso intenso do aparato estatal para fins de industrialização. Apesar dos avanços econômicos alcançados, ele aponta contradições entre os resultados obtidos e os ideais que motivaram esses processos históricos.
O lançamento do livro reforça o debate sobre desigualdade, democracia e o papel do Estado no desenvolvimento econômico, temas que seguem centrais na agenda política e social brasileira.
Por Camila Boehm - Repórter da Agência Brasil - 20
da redação FM
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